Presidente da Royal Institution of Chartered Surveyors (RICS) fala sobre plano de concessões e estabilidade político-econômica

A Royal Institution of Chartered Surveyors (RICS), estabelecida por Alvará Real no Reino Unido em 1868, tem por objetivo manter padrões profissionais das atividades relacionadas ao mercado de real estate. Com 180 mil membros em 146 países, a RICS atua no Brasil desde 2011 promovendo cursos para empresas, conferências e seminários sobre padrões e certificações na área da construção civil.

Em breve visita a São Paulo em outubro, Clark – que também é partner na área de infraestrutura da Ernst & Young – afirmou que existe um déficit mundial no setor de infraestrutura na casa de US$ 57 trilhões, o que representa uma enorme oportunidade para investidores. Para que o Brasil possa se beneficiar, ela afirma que o governo precisa elaborar uma estratégia clara e certeza institucional. “Fundamentalmente, é preciso ter uma boa estrutura de governança e também um ambiente político- econômico e social estável. Se você não tiver os ingredientes corretos, é mais difícil atrair esses investimentos privados para o país.”

Ela é apenas a segunda mulher a presidir a RICS em 148 anos de história e escolheu a questão da diversidade como um dos legados que quer deixar após o seu mandato. Segundo ela, a questão é estratégica, pois, se o setor quiser estar bem posicionado para o século XXI, ele terá que olhar para a força de trabalho de maneira mais ampla do que faz atualmente. “A guerra por talentos significa atrair os melhores profissionais para servir aos clientes. Para fazer isso, precisamos pensar de uma forma completamente diferente, temos que olhar para a população em geral, o que significa olhar para a diversidade e a inclusão, e como avançar nisso.”

Você escolheu o setor de infraestrutura como um tema-chave de seu mandato. Que tipo de ações a RICS tem preparado para o Brasil nesse sentido?
Eu tenho três temas como presidente [da RICS] neste ano – infraestrutura, cidades e a guerra por talentos. Eles surgiram a partir do nosso trabalho de como nos preparar para as mudanças no futuro, com o que as coisas se parecerão em 2030, como nós, como profissionais, devemos responder a isso. Basicamente, em termos de infraestrutura, existe um buraco [global] de US$ 57 trilhões que precisa ser preenchido, o que apresenta enormes oportunidades. Em termos de cidades, atualmente temos 54% da população mundial vivendo em ambientes urbanos como São Paulo. E em 2030 teremos 66% da população vivendo em cidades, um aumento massivo. Uma das coisas em que estamos trabalhando é uma agenda voltada para a infraestrutura, como ajudar os clientes a estarem mais bem informados, como ajudar em termos comerciais e custo de engenharia de megaprojetos, que custam milhões de libras, dólares, ienes, euros e real, e a interoperabilidade entre o crescimento das cidades e suas necessidades de infraestrutura. Nós temos um material chamado The Hub and the Place Report que compara e contrasta [o distrito] King’s Cross, em Londres, Guangzhou, na China, e Calcutá, na Índia, e procura os componentes-chave nesses diferentes países, estruturas governamentais e culturas que precisam funcionar para atrair investimentos em infraestrutura. Para o Brasil, nos níveis nacional, regional e local, há boas lições nesse relatório. É por isso que estou aqui no Brasil. Vim para uma reunião com líderes de todos os setores, que se uniram para discutir o que fazer para ajudar o governo a pensar de forma mais efetiva sobre investimentos.

Atrair investimentos privados para projetos de infraestrutura é um dos pontos enfatizados pelo governo brasileiro para a recuperação da economia. Como profissional com expertise neste segmento, quais são as suas sugestões para que isso aconteça?
Para realmente conseguir investimentos do setor privado existem componentes- chave essenciais. Começa com o governo estabelecendo uma estratégia, um plano com projetos que precisam ser estruturados e uma lista com os projetos prioritários. Mas reitero que é preciso ter uma boa estrutura de governança e um ambiente político-econômico e social estável. Se você não tiver os ingredientes corretos, é mais difícil atrair esses investimentos privados para o país, porque, basicamente, se você não tem estabilidade, o investimento acaba se tornando de alto risco para as pessoas. Projetos de infraestrutura duram muitos anos. Uma construção pode demorar de 20 a 30 anos, e ela existirá por algumas centenas de anos. Quando você fala de financiamento privado para construções de infraestrutura, é um investimento de longo prazo, por isso é muito importante ter estabilidade político-econômica.

Viabilizar projetos de infraestrutura requer o apoio de parcerias público-privadas. O que o governo deve fazer para tornar a infraestrutura mais atraente para o setor privado?
Parcerias público-privadas, as PPPs, funcionam bem quando o governo tem clareza sobre a sua estratégia, com prioridades, mas precisa também estar preparado para financiar os primeiros investimentos. Você precisa ter o setor privado construindo em cima disso, investindo. Em particular, voltando ao The Hub and the Place Report, está claro para mim que, se o governo está preparado para investir e talvez iniciar projetos de hubs, como estações de trem ou aeroportos, você gera uma reverberação econômica ampla, que acaba estimulando naturalmente o setor privado a investir, principalmente no mercado imbiliário. E aí esse impulso se fortalece e o crescimento econômico se apoia nisso.

Fundamentalmente, é preciso ter uma boa estrutura de governança e também um ambiente político-economico e social estável. Se você não tiver os ingredientes corretos, é mais difícil atrair esses investimentos privados para o país

Quais as principais questões que o setor de infraestrutura precisa resolver para estar bem posicionado para o século XXI?
Estar pronto para o século XXI, para mim, é ser capaz de olhar para frente, pensar o que beneficiará as pessoas em 20, 30 anos e levar isso em consideração no seu projeto. Planejar o futuro, hoje. Você também precisa pensar a respeito das mudanças tecnológicas. Uma das coisas que faço [como partner na Ernest & Young] é trabalhar com uma empresa chamada HackTrain, que busca trazer e acelerar inovações no setor ferroviário do Reino Unido. É aí que você precisa buscar pessoas mais jovens, porque elas pensam diferente e podem trazer mudanças mais depressa. Penso que isso será muito importante, principalmente quando olhamos o papel que os sistemas de informação terão em infraestrutura. Como desenhamos, construímos e mantemos infraestrutura, e uma infraestrutura que seja inteligente e diga quando precisa de manutenção. Ficar atentos a coisas como impressão 3D, colocar tecnologia em infraestrutura para que haja autonomia. Eu acho que é um momento empolgante e temos a tecnologia, ela está aí, a todo lugar que eu vou no mundo eu vejo essa tecnologia. Precisamos abraçar essa tecnologia e inseri- la nas estruturas.

Em uma outra entrevista que você deu, você disse que o setor ainda precisa evoluir na questão de como utilizar dados.
Sem dúvida. Nós temos muita informação que nos é apresentada na forma de dados, no entanto o mais importante é o que você faz com ela, e isso tem a ver com interconexão. Nessa questão, os prefeitos têm um papel crucial, pensando a cidade de maneira holística, na combinação de diversas infraestruturas, e como usar os dados para tomar informações mais bem embasadas, ou criar estruturas capazes de enviar informações para uma central de controle, para fazer a cidade funcionar melhor. Nós temos dados, mas o que importa é o que você faz com eles.

Muito se discute sobre a necessidade de profissionalização e padronização dos procedimentos de avaliação no mercado imobiliário brasileiro. O Brasil tem feito a lição de casa?
Ter padrões é algo muito importante e acaba remetendo a como atrair investimentos. Investidores querem certeza e confiança. O que os padrões fazem é, basicamente, possibilitar que investidores passam tomar decisões bem fundamentadas, não importa onde estejam investindo, seja Brasil, Bolívia, Bélgica ou Bulgária. Se você tem uma série de critérios consistentes, você poderá tomar decisões bem fundamentadas onde quer que esteja investindo. A RICS está fazendo uma série de trabalhos na área de padrões, mas não de forma isolada, e sim de forma muito importante, colaborando com outras organizações, trazendo o melhor para desenvolver padrões aos nossos associados, para que eles possam utilizá-los. Nossos membros aderem aos padrões que nós estabelecemos, principalmente em relação a padrões de medidas de propriedades. Para os membros que operam no Brasil, o uso dos nossos padrões é obrigatório. O padrão que produzimos é internacional, e isso é muito importante. Nós trabalhamos com governos, e muitos deles, como é o caso do governo da Índia, estão conversando com a RICS sobre como ir além e adotar ainda mais padrões. Bancos e instituições financeiras afirmam também que querem adotar ainda mais esses padrões. Padrões para medição de propriedades estão sendo adotados por Canadá, Dubai e Reino Unido. Todos eles estão dizendo que querem que seu portfólio de propriedades utilize nosso padrão. Se puder falar algo ao governo brasileiro, eu diria que é importante que ele adote o padrão internacional e trabalhe em conjunto com a RICS nesse sentido.

Se você tem uma série de critérios consistentes, você poderá tomar decisões bem fundamentadas onde quer que esteja investindo

A RICS lançou no Brasil, em 2014, uma nova edição do Red Book, uma cartilha para orientação e capacitação de avaliadores. Como tem sido a receptividade desse material no mercado brasileiro? Que tipo de benefícios os brasileiros podem esperar do documento?
Eu acho que esse é um momento muito importante, porque o Red Book é aceito mundialmente, por muitos governos, bancos e investidores, por estabelecer os fundamentos de como as avaliações são feitas. Minha visão volta novamente para a mensagem da confiança em investimentos, e os investidores que querem aplicar recursos no Brasil podem ficar seguros de que os nossos membros aderiram a critérios internacionais de avaliação. Considero fundamental, um momento importante para o Brasil, que exista esse apoio aos padrões.

Considerando a conjuntura atual, quais seriam os principais drivers para estimular o crescimento do mercado de real estate no Brasil?
É sempre interessante olhar para o Brasil. Estive aqui há três ou quatro anos e falávamos do mercado na ocasião. E aí você volta e vê todas as mudanças que ocorreram, então se percebem grandes investimentos em real estate. Torres sendo erguidas, com muito espaço verde sendo incorporado. Quando olho da janela do meu quarto de hotel, é possível ver guindastes e diversas construções acontecendo. O que realmente importa é que os investimentos em construção continuam, porque sem eles tudo fica difícil economicamente. Encorajar empreedimentos é muito importante.

A questão de formação de novos talentos, privilegiando a inclusão e a diversidade, é outro tema-chave da sua gestão. Como você pretende avançar nesse ponto?
A guerra por talentos é, segundo o que vimos, a principal preocupação dos empresários. E os nossos membros também se preocupam em permanecer relevantes em 2030, principalmente na área de tecnologia e dados, que impactam nossa vida diariamente. Além disso, a guerra por talentos significa atrair os melhores profissionais para servir aos clientes. Para fazer isso, precisamos pensar de uma forma completamente diferente, temos que olhar para a população em geral, o que significa ter em mente a diversidade e a inclusão, e como fazer para avançar nessas questões.

… a guerra por talentos significa atrair os melhores profissionais para servir aos clientes. Para fazer isso, precisamos pensar de uma forma completamente diferente, temos que olhar para a população em geral, o que significa ter em mente a diversidade e a inclusão, e como fazer para avançar nessas questões

A presença de mulheres no mercado ainda é muito baixa. O que fazer para mudar?
Quando você olha para as áreas em que a RICS atua, do total de pessoas que temos ao redor do mundo, apenas 13% são compostas por mulheres. Quando olhamos para um dos meus objetivos, o recrutamento de talentos, se queremos atrair os melhores profissionais para o setor, precisamos pensar diferente a respeito do que fazemos. Existem mudanças acontecendo. Quando olho para o Programa de Trainees, a presença feminina é de 24% do total. Se quisermos que as coisas mudem, precisamos pensar de forma diferente sobre como falar com as pessoas sobre os benefícios dessa profissão, e não é possível ignorar 50% da força de trabalho. Precisamos promover e atrair de forma ativa os principais talentos, principalmente as mulheres para essa profissão. Eu trabalho nesse setor há 30 anos e sempre amei o que faço, porque pesquisa significa entender a vida das pessoas, criar comunidades e um ambiente onde as pessoas vão viver, trabalhar e passar o tempo. Você cria um legado duradoro com tudo o que você faz, e eu penso que esta é uma excelente profissão tanto para as mulheres quanto para os homens.

Por que, em sua opinião, há poucas mulheres na área?
É algo que ocorre ao redor do mundo. Nós queremos trazer mais mulheres para a profissão aqui no Brasil, assim como em outros lugares. Ontem à noite [11 de outubro], dos 80 membros presentes no encontro, quando fomos tirar uma foto, 25 eram mulheres, grandes líderes em suas empresas. Então, os modelos estão aí, e estamos tentando fazer com que elas contem suas histórias, porque isso é muito bom para tentar atrair a próxima geração. Essa profissão, assim como na engenharia, não é vista como algo que as mulheres necessariamente procuram. Nós precisamos promover mais o que fazemos, e que não é só estar em canteiros de obras, há muitas facetas na área de pesquisa. Eu amo essa área porque você realmente está fazendo a diferença, todos os dias.

Não temo falar sobre diversidade e inclusão, e isso eu acho muito importante, e essa é a questão de ser modelo. Acho que todo mundo pode ser um modelo, muitas pessoas têm medo disso, mas nós temos algumas pessoas que seriam excelentes nisso, que trabalham em projetos maravilhosos. Apenas falar disso já faz uma enorme diferença

Você se sente encorajada a incentivar outras mulheres a seguirem seus passos?
Eu realmente sinto que tenho uma responsabilidade. Faz parte do trabalho de ser presidente da RICS, e de ser uma presidente mulher. Sou a segunda mulher a ser presidente da RICS em 148 anos e, como estamos nos aproximando de 150 anos de história, acho importante tratarmos desse assunto. Ao longo do ano passado e deste ano, em termos de inclusão de diversidade, especialmente feminina, nós estamos fazendo coisas muito interessantes. Organizamos mentorias para mulheres na África do Sul. O projeto está no estágio inicial, mas pode ser algo a ser implementado ao redor do mundo. A mentoria é algo muito importante, especialmente para pessoas iniciantes na carreira. Estou tentando avançar nessa área. Estamos fazendo muito para promover a área, inclusive iniciativas específicas. Nós lançamos no Reino Unido a Marca de Qualidade de Empregadores Inclusivos (Inclusive Employer Quality Mark), que proveu pela primeira vez ao setor parâmetros sobre diversidade e inclusão, com base em seis fatores-chave, começando por líderes estabelecendo estratégias, de grandes a pequenas empresas. Não temo falar sobre diversidade e inclusão, e eu acho isso muito importante, essa é a questão de ser modelo. Acho que todo mundo pode ser um modelo, muitas pessoas têm medo disso, mas nós temos algumas que seriam excelentes nisso, que trabalham em projetos maravilhosos. Apenas falar disso já faz uma enorme diferença.

Por Ivan Ryngelblum

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