Diretor-presidente da MRV fala sobre as perspectivas da empresa para 2017 e a continuidade do programa Minha Casa Minha Vida na gestão Temer

Em 1979, quando o Brasil ainda vivia os duros anos de governo militar, Rubens Menin Teixeira de Souza e dois sócios fundaram, em Belo Horizonte, o grupo MRV. Com o fim da ditatura e a consolidação da democracia, a empresa prosperou, dando um grande salto em 2007, quando se tornou uma companhia de capital aberto, tendo suas ações negociadas na BM&FBovespa. Nesse ínterim, na década de 1990, Rafael Menin, filho do presidente e fundador da construtora, começou a atuar nos negócios da família como estagiário de engenharia civil.

Ele acompanhou de perto quando, em 2009, a companhia fez um movimento que hoje lhe garante a liderança no segmento de construção civil econômica no Brasil. Naquele ano, a convite do então presidente Lula, a MRV e outras seis empresas do setor participaram da elaboração do programa habitacional Minha Casa Minha Vida. Em quase uma década trabalhando com esse produto, as obras do MCMV se transformaram no carro-chefe do grupo mineiro que atualmente se estabelece como a maior construtora e incorporadora de casas e apartamentos para as classes média e média baixa no país, atendendo as faixas 1.5, 2 e 3 da plataforma.

“Estamos presentes em 143 cidades e 21 estados, incluindo o Distrito Federal. Lançamos 40 mil unidades por ano por meio do MCMV”, afirma Rafael Menin, diretor-presidente da companhia. O executivo segue confiante com o futuro da plataforma de construção popular, apesar das mudanças no governo e da crise econômica. Turbulências que parecem ter afetado pouco o desempenho da empresa nos anos mais severos da austeridade econômica. De acordo com a pesquisa Setor de Construção – Análise das Vendas, Lucro, Dívida e Valor de Mercado nos Últimos 7 Anos, realizada no segundo trimestre de 2016 pela consultoria Economatica, que desenvolve sistemas para análise de investimentos -, em 2015 a MRV ficou em primeiro lugar em volume de vendas, com R$ 4,76 bilhões, que representa 19,9% do total de faturamento do setor.

‘Mesmo com alterações na economia e com o endurecimento nas condições para se obter crédito, a faixa econômica continua resiliente às mudanças porque tem uma enorme demanda reprimida. Resistiu ao impeachment de Dilma e tem tido pouco impacto diante da crise política.’

O relatório financeiro divulgado pela empresa em novembro de 2016 também mostra um cenário positivo. A construtora obteve o melhor trimestre em vendas líquidas do ano, totalizando R$ 1,05 bilhão. Desde 2013, a MRV desembolsou R$ 657 milhões no desenvolvimento e equilíbrio do landbank, com uma evolução de 83% no número de unidades localizadas nas capitais e regiões metropolitanas, onde há grande demanda pelos imóveis. Além disso, das 143 cidades onde atua, 112 oferecem estoque adequado. Segundo Rafael Menin, o landbank cada vez mais maduro possibilitará o aumento no volume de lançamentos, contribuindo para maior equilíbrio do estoque comercial e impulsionando o crescimento. A expectativa da companhia é que tão logo o estoque comercial alcance o nível ideal, ela obtenha um potencial de 5 mil unidades vendidas ao mês.

‘Observo que em 2016 o país chegou ao fundo do poço com as crises política e econômica. Entretanto, no fim do ano alguns movimentos do mercado econômico já sinalizavam de maneira positiva, e acredito que as reformas nos âmbitos político e econômico abrem um horizonte mais positivo para o setor, que continua com potencial de aquecimento.’

Os números da empresa atualmente são positivos, porém, cerca de 95% da produção da MRV é dedicada ao Minha Casa Minha Vida. Há alguma apreensão em relação ao programa após o fim do governo Dilma Rousseff?
Com a saída de Dilma a construção de apartamentos populares passou a adotar comportamentos distintos. Até 2013, houve uma boa performance do setor, depois a velocidade na implantação de projetos diminuiu um pouco, mas as vendas não foram afetadas. O desempenho das vendas não mudou, porque a demanda por esse tipo de produto é muito alta no mercado. Anualmente, se formam no Brasil mais de 1 milhão de famílias, que costumam seguir três caminhos para solucionar seu problema de moradia: comcomprar imóvel, alugar um ou morar com os pais. Nesse cenário, mesmo com as alterações na economia e com o endurecimento nas condições para se obter crédito, a faixa econômica continua resiliente às mudanças porque tem uma enorme demanda reprimida. Resistiu ao impeachment de Dilma e tem tido pouco impacto diante da crise política. Além disso, nos últimos dois anos houve uma redução dos investimentos de algumas construtoras no segmento econômico, que acabaram se voltando para as classes média alta e alta, aumentando o gargalo da oferta. Percebemos que na gestão Temer houve algumas mudanças conflituosas de diretrizes em relação ao programa, especialmente no que diz respeito às faixas 1 e 2. Sem dúvida, é preciso que se adote políticas públicas claras para atender a essa parcela gigantesca da população, mas temos certeza de que esse é um setor em expansão, que não ficará desprivilegiado devido a sua importância.

Por que observa com tanto otimismo o futuro do programa Minha Casa Minha Vida?
Porque em todos esses anos atuando com o MCMV temos a clareza de que esse não é apenas um programa social que promove habitação. Ele é muito mais, pois gera impactos sociais positivos em vários âmbitos. Entre 2010 e 2014, contribuiu para a redução anual média de 2,8% no déficit habitacional, anualmente gera cerca de 3 milhões de empregos no país e representa cerca de 10% do PIB. Hoje, temos uma grande parcela da população que recebe até dez salários mínimos interessada em adquirir a casa própria, mas fatores negativos da economia, como os juros altos, a taxa Selic e a alta taxa de desemprego, fazem com que o comprador de todas as classes sociais desistam de investir em um imóvel. Observo que em 2016 o país chegou ao fundo do poço com as crises política e econômica. Entretanto, no fim do ano alguns movimentos do mercado econômico já sinalizavam de maneira positiva, e acredito que as reformas nos âmbitos político e econômico abrem um horizonte mais positivo para o setor, que continua com potencial de aquecimento. O nicho econômico consome bem quando encontra um panorama favorável para essa compra.

Qual será o posicionamento da empresa em 2017? Quantas unidades devem ser lançadas?
Entre 2007 e 2013 estivemos fortemente presentes em cidades do interior do Brasil, com destaque para municípios do estado de São Paulo. Foi um momento em que a concorrência era maior, e resistimos em comprar terrenos nas grandes capitais. De 2014 para cá, começamos a investir de maneira agressiva nas capitais, especialmente nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre, com R$ 1,5 bilhão em investimentos. Um exemplo significativo é Pirituba, um bairro na periferia de São Paulo, onde construímos 7.500 unidades nesse período. Até o fim de 2017, pretendemos lançar 26 mil unidades em todo o país. Recentemente aderimos também à construção de imóveis destinados à faixa 1.5 da plataforma, com lançamento de 40 mil unidades em 2016. A expectativa para este ano é que a construção civil volte a se aquecer em todos os setores, não apenas no econômico.

‘Até o fim de 2017, pretendemos lançar 26 mil unidades em todo o país. Recentemente aderimos também à construção de imóveis destinados à faixa 1.5 da plataforma, com lançamento de 40 mil unidades em 2016.’

Quais serão as cidades em destaque para os lançamentos da MRV por meio do programa Minha Casa Minha Vida?
Investiremos em duas frentes principais: grandes capitais do Sul, Sudeste e Nordeste e suas respectivas regiões metropolitanas. E também no interior de seus estados. Outras localidades para as quais estamos olhando com atenção redobrada são as cidades fluminenses e as do interior do Nordeste com vocação para a indústria de óleo e gás. São municípios que foram fortemente atingidos pela crise da Petrobras e pela queda nos royalties do petróleo, onde hoje há desemprego e pouca oferta de imóveis do setor econômico. Sabemos que a economia desses lugares levará um bom tempo para retomar seu fôlego, porém, apostamos na entrada de novos players do setor de óleo e gás para uma mudança positiva de cenário. A tendência é que essas empresas se instalem em municípios com infraestrutura e mão de obra já existentes. E, como o setor de construção civil tem um tempo para colocar em prática suas estruturas, acreditamos que num futuro próximo essas regiões tenham compradores interessados em investir na casa própria por meio do MCMV. É um timing focado para quando os empreendimentos já estiverem com as obras em andamento. A demanda no longo prazo não é o problema, mas sim os financiamentos, que não estão disponíveis para essa parcela da população mais fragilizada com a instabilidade econômica. É preciso que o governo destine um olhar especial para o comprador de média renda, que necessita de mecanismos financeiros adequados à sua realidade para investir em um imóvel.

Entenda quais são as faixas de imóveis da MRV oferecidos através do programa Minha Casa Minha Vida

FAIXA 1.5 
Destinada a famílias com renda máxima de R$ 2.350, oferece subsídios de até R$ 45 mil para financiamento de imóveis de até R$ 135 mil, dependendo da localização, com 5% de juros ao ano. O interessado deve fazer a simulação de financiamento no site oficial do programa, completar o cadastro e aguardar o sorteio. Caso seja contemplado, ele precisa procurar um imóvel nas condições e com os valores admitidos no programa e ir a uma agência do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica para solicitar o financiamento.

FAIXA 2
Voltada a famílias com renda entre R$ 2.351 e R$ 3,6 mil. Oferece até R$ 27.500 de subsídio, com 5,5% a 7% de juros ao ano. Os interessados precisam fazer a simulação no site do programa e, depois, ir diretamente ao Banco do Brasil ou à Caixa para solicitar o financiamento.

FAIXA 3
Possibilita o acesso a moradia por meio de financiamento com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), de famílias com renda bruta mensal acima de R$ 3,6 mil e até R$ 6,5 mil, com taxas de juros até 8,16% ao ano. O interessado vai direto a uma agência da Caixa ou do Banco do Brasil para realizar a análise de crédito e dar continuidade ao processo de contratação do financiamento.

Por Alexandra Gonsalez

Veja também: