Em meio à crise econômica, três obras na Avenida Paulista, em São Paulo, estão movimentando R$ 300 milhões

“Com a atual crise, houve uma queda de arrecadação de aproximadamente 5%. E essa queda está afetando nosso orçamento. Então, nós temos de renegociar fornecedores, gastar menos energia elétrica e continuar reduzindo despesas. Parte do orçamento está reservada para investir em nossa expansão.”
Luiz Galina,
 diretor interino do Sesc

São obras que não dependem do humor do mercado, estão no pipeline dos “donos” há muito tempo, nem dependem de complexas operações de investimento, mas guardam lições em comum. Em vez de adiá-las, seus incorporadores buscaram maneiras de reduzir custos de obras e operacionais dos edifícios. Apostando na eficiência energética ou explorando tecnologias de retrofit, hoje acessíveis a qualquer empreendimento, deixarão a marca de três grandes escritórios de arquitetura. Apesar das limitações, eles não pouparam criatividade na combinação de sistemas construtivos e na assertividade do principal requisito – o orçamento curto. O papel dos fornecedores também foi fundamental. As negociações mostram que em tempos de crise as soluções podem estar bem ali onde sempre estiveram.

Com quase 70 metros de altura, o edifício do Sesc Paulista recebeu investimento de R$ 100 milhões. O edifício remodelado terá todas as esquadrias substituídas por uma grande lâmina de vidro

Sesc Paulista
O Sesc (Serviço Social do Comércio) funciona desde 1946 e sempre esteve ligado à divulgação cultural e ao incentivo aos esportes. No estado de São Paulo, tem uma rede de 40 unidades, cada uma com identidade arquitetônica própria. Mesmo com a grave crise econômica brasileira, o Sesc tem quatro unidades sendo aprontadas para entrega entre 2017 e 2018 no estado, como 24 de Maio, Birigui e Guarulhos. Os planos de expansão incluem novas unidades em São Paulo: Limeira e Marília, e nos bairros paulistanos de Pirituba e São Miguel, fora as reformas de instalações em Bertioga, Registro, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, Taubaté e Santos.

O edifício no número 119 da Paulista era usado pela administração central do complexo Sesc. Em 2010 foi fechado e está sendo totalmente reformado para se tornar uma das unidades abertas ao público. Sua área construída é de 12.150 metros quadrados na esquina da Rua Leoncio de Carvalho, logo no primeiro quarteirão da avenida. À sua frente está o Hospital Santa Catarina e outro dos novos projetos da Paulista – a Japan House.

A nova estrutura
Essa unidade vai ter 15 andares com oficinas culturais, espaços de exposição, equipamentos e instalações esportivas (sem piscina), clínica odontológica e outras atrações. No último andar será instalado um restaurante com vista panorâmica para a avenida. Um dos aspectos mais ousados do projeto é o desenvolvimento de um boulevard na Rua Leôncio de Carvalho. A ideia é criar um corredor entre o Sesc e o Itaú Cultural, do outro lado da rua, exclusivo para pedestres. A administração desse espaço seria dividido entre as duas entidades. As negociações para isso estão adiantadas, até mesmo com a prefeitura da cidade.

O projeto do Sesc Paulista é assinado por Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados. O investimento é calculado em 100 milhões de reais. O projeto inclui a substituição de todas as esquadrias e a montagem de uma grande lâmina de vidro com efeito de tela plana. As atividades desenvolvidas no interior do edifício poderão ser acompanhadas de forma discreta por quem estiver na rua. Seu aspecto platinado e futurista vai projetar uma Paulista do futuro.

Localizado no lado ímpar, o Sesc Paulista fica no início da Avenida Paulista

Investimento na crise
Como financiar um empreendimento desses numa época de crise? O diretor interino do Sesc, Luiz Galina, responde em entrevista à Construção Mercado com um raciocínio simples e que poderia servir de lição para o Estado brasileiro. “A crise nos afeta, não somos uma ilha. A receita principal vem das empresas contribuintes do Sesc. Nós vivemos do que arrecadamos. Com a atual crise, houve uma queda de arrecadação de aproximadamente 5%. E essa queda está afetando nosso orçamento. Então nós temos de renegociar fornecedores, gastar menos energia elétrica sem perder a qualidade, e continuar reduzindo despesas. Parte do orçamento está reservada para investir em nossa expansão. O fato é que não podemos, por princípio, tomar qualquer forma de empréstimo. Quando iniciamos uma obra, uma parte de nossa receita é reservada para isso e deve durar até sua conclusão. Se houver queda de arrecadação, como agora, temos uma reserva. Essa impossibilidade de tomar empréstimos é uma garantia de evitar aventuras.”

O novo Sesc Paulista deve ter suas obras encerradas no fim de 2017, mas não existe ainda uma data prevista para a inauguração. “Os investimentos na reforma do prédio estão estimados em R$ 100 milhões, e isso inclui a obra inteira. Afinal, era um prédio de escritórios que está sendo transformado num edifício de uso público com muitas atividades diferentes”, declarou Luiz Galina. Para a adaptação do novo prédio, o número de trabalhadores chega a 200.

Ficha técnica
Nome da obra:
 Sesc Avenida Paulista
Localidade: Avenida Paulista, 119
Área do terreno: 1.195,50 m²
Área construída: 12.091,32 m²

Incorporação e construção: de 2011 a 2016: Mendes Junior Trading e EngenhariaS/A; de 2016 a 2017: Omar Maksoud Engenharia Civil Ltda.
Arquitetura: Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados S/C Ltda.
Altura do edifício: 69,18 m
Número de unidades: 2 subsolos, térreo, pilotis, 15 pavimentos, 2 áticos e cobertura
Projetista estrutural: Kurkdjian & Fruchtengarten Engenheiros Associados S/S Ltda.
Projeto de fundações: MAG Projesolos Engenheiros Associados Ltda.
Fundações: Fundsolo Serviços Geotécnicos
Consultoria para dosagem de concreto: Concremat Inspeções e Laboratórios
Ensaios de concreto: Concremat Inspeções e Laboratórios
Formas e escoramento: SH Formas Andaimes Escoramentos Volume de Concreto: 650,00 m³ Volume de Aço: 32,24 t
Quantidade, diâmetro e comprimento de estacas: 19 estacas do tipo raiz, com diâmetro de 25 cm e comprimento total de 316 m.
Projeto preventivo, hidrossanitário e elétrico: PHE Engenharia de Projetos Hidráulicos e Elétricos Ltda.
Projeto de esquadrias: Nelson Firmino da Silva Consultoria e Esquadria-ME
Projeto de climatização: Thermoplan Engenharia Térmica Ltda.
Elevadores: Elevadores Otis
Aço: ArcelorMittal Brasil

Japan House
Todos sabem que a maior população de origem japonesa fora do Japão está no Brasil – e especialmente em São Paulo. Em breve, além do bairro da Liberdade, vai existir outro ponto de referência nipônica na capital paulista: a Japan House. A iniciativa é do governo japonês, que também está construindo somente mais duas Japan Houses no mundo: em Londres e Los Angeles. A inauguração está prevista para o primeiro semestre de 2017.

A House vai juntar a tecnologia com a tradição de acordo com o projeto desenvolvido pelo arquiteto japonês Kengo Kuma, que trabalha em parceria com o escritório FGMF. O diretor-geral de todas as casas é o designer Kenya Hara, que vai trabalhar com o curador Marcello Dantas.

A imagem de alta tecnologia projetada pelo Japão estará presente na casa, mas ela pretende ser um oásis na agitação da Paulista. O bambu e a madeira são elementos muito presentes na construção. Leves portas deslizantes vão servir para modular o tamanho de cada espaço.

A ideia é que atraia tanto aquele que acompanha suas atividades como o pedestre casual que quer dar uma pausa na correria cotidiana. A Japan House vai ter como atrações um restaurante-cafeteria típico do país, loja de artesanato e instalações para eventos, negócios e seminários. Personalidades japonesas terão ali um ponto para workshops, palestras e cursos. São 2.500 metros quadrados de espaço útil em três andares, incluindo uma biblioteca relacionada com a cultura japonesa.

Um dos elementos da construção acabou levantando um aspecto curioso e simbólico dessa ligação entre os dois países. Quando a Avenida Paulista foi inaugurada, há 125 anos, japoneses plantaram aqui uma floresta de hinokis, um gênero de pinheiro nativo do Japão. Cento e vinte e cinco anos depois, uma parte desses hinokis está sendo usada (por meio de manejo sustentável) na construção da Japan House. A madeira possui, portanto, a mesma idade da avenida onde será instalada. Artesãos japoneses vieram para São Paulo para coordenar o processo próprio de encaixe dessa madeira na fachada do empreendimento, seguindo proposta do arquiteto Kengo Kuma.

A inauguração da Japan House de São Paulo está prevista para o primeiro semestre deste ano

Ministério dos Negócios
Estrangeiros do governo japonês não informam detalhes do investimento na construção, mas o plano é que alcance um total de 30 milhões de dólares até março de 2019. O financiador principal é o governo japonês, mas empresas privadas poderão entrar com o apoio a eventos e programas. A empresa Dentsu (de comunicação de publicidade) ganhou por licitação a concessão para administrar o empreendimento no Brasil. A Dentsu vai atuar em parceria com a Suriana, uma consultoria de desenvolvimento de negócios internacionais.

Mas por que investir no Brasil numa época tão difícil? “Se o país está em crise ou vivendo um momento de bonança, isso é irrelevante para a criação de um centro que tem por objetivo mostrar o Japão contemporâneo”, afirma Takahiro Nakamae, cônsul-geral do Japão em São Paulo. “O que importa é que São Paulo é o epicentro cultural e econômico de toda a América do Sul. É um lugar ótimo. É o melhor ponto para a difusão não só da cultura japonesa, mas também das realidades social, tecnológica, comercial do Japão. O potencial de São Paulo para a difusão de informações para todo o país é o mais importante. Isso quer dizer que temos aqui um patrimônio cultural histórico muito rico, herdado e difundido pela comunidade japonesa. Ou seja, há em São Paulo uma base de tradição muito forte para a instalação de um espaço do Japão contemporâneo. Sabemos que, com o tempo, as dificuldades de agora vão passar. Nosso investimento tem visão de longo prazo.”

Ficha técnica 
Nome da obra: Japan House São Paulo
Localidade: Av. Paulista, 52
Área do terreno: 1.863,36 m²
Área construída (reformada): 2.496 m² (térreo: 813 m², 1º: 356 m², 2º: 1.104m², 3º: 223 m²)

Arquitetura: Kengo Kuma and Associates + FGMF
Construção: Construtora Toda do Brasil
Montagem de madeira: Construtora Nakashima
Projetista estrutural de concreto: Benedictis Engenharia
Projetista estrutural de metálica: Confer Projetista estrutural de madeira: Ejiri Structural
Engineers Projeto de Instalação elétrica: Mina Montagens
Projeto de Instalação hidráulica: Mina Montagens
Projeto de Instalação de ar-condicionado: Mina Montagens
Projeto de Iluminação: Castilha Iluminação
Projeto de paisagismo: Alex Hanazaki
Monitoramento de Andaimes e Escoramentos: Layher Comércio de Sistemas de Andaimes
Concreto: Neorex
Vidros: Seixas Vidros
Esquadrias de alumínio: Alumicenter
Esquadrias de madeira: Rigofer Serralheria
Elevadores: Mitsubishi Electric
Louças e metais: Toto 
Divisória móvel: 
Dimoplac
Divisória sanitária: Neocon
Equipamento de som: Towa do Brasil
Ar-condicionado: Mitsubishi Electric

Instituto Moreira Salles
A nova sede do Instituto Moreira Salles (IMS) foi planejada “de dentro para fora”. De acordo com o escritório Andrade Morettin Arquitetos, autor do projeto, “imaginamos um museu acessível, ancorado no presente, que tenha uma relação franca e direta com a cidade e que, ao mesmo tempo, ofereça um ambiente interno tranquilo e acolhedor; um museu capaz de equilibrar a vibração das calçadas com a natureza e a escala dos espaços museológicos, que exigem uma qualidade de luz e uma percepção do tempo muito particulares; um museu, enfim, de caráter marcante, que proporcione uma experiência única e pessoal para quem o visita”.

A equação é aparentemente simples: combinar a intenção do espaço interno, o ambiente relaxado de um museu, com seu ambiente externo, a frenética Paulista. “O cruzamento com a Rua da Consolação se traduz em grande movimento de veículos e de pessoas, em razão da proximidade das diversas estações de metrô e do corredor de ônibus”, definiu os arquitetos do Andrade Morettin. “A calçada, nesse ponto, é mais estreita, por causa da presença do túnel em frente. Estamos bem no final da avenida, de onde se pode avistar o Vale do Pacaembu e para a derivação do espigão da Avenida Doutor Arnaldo, à esquerda. O Conjunto Nacional está a duas quadras dali; o Masp, um pouco mais à frente. O lote, com 20 x 50 metros, é plano e cercado por edifícios de 13 a 18 andares por todos os lados: uma lacuna na sequência de volumes perfilados ao longo da avenida.”

Na foto aérea, acima, a obra na fase de fundações. À esquerda, fachada renderizada. A obra fica na altura da passagem subterrânea para a Avenida Doutor Arnaldo

Expansão na cidade
“Desde 1996 o IMS estava presente na cidade com uma pequena, mas relevante, galeria na Rua Piauí, no bairro de Higienópolis”, declarou Flavio Pinheiro, superintendente executivo do IMS, a Construção Mercado. “São Paulo merecia mais. Não só por ser a maior e mais importante cidade do país, mas também por ser a de maior efervescência cultural. Aqui o IMS oferecerá algumas coisas que já oferecia a seus visitantes do centro cultural do Rio de Janeiro: cinema, cursos, eventos musicais. Mas em São Paulo teremos uma biblioteca especializada, que será um centro de referência em fotografia, que nascerá com cerca de 10.000 livros brasileiros e estrangeiros. É enorme a expectativa de abrir um centro cultural numa área servida por duas linhas de metrô, por onde circulam diariamente mais de 1 milhão de pessoas e que se consolida como um forte corredor cultural da cidade”, conta Pinheiro.

O investimento de R$ 80 milhões de reais foi realizado exclusivamente pela família Moreira Salles. “Com a decisão de construir um centro cultural na Avenida Paulista, a família destinou recursos ao IMS para que ele pudesse arcar com as obras”, disse Flavio Pinheiro. “Além disso, vitaminou a dotação existente para que ela pudesse suportar os novos custos de animação do IMS Paulista. Como os recursos existiam e foram reservados para isso, a crise não teve repercussão na decisão. Mas com certeza afetou os custos da obra.”

A gleba
A princípio o IMS pensou num lote que permitisse a construção de um museu horizontal, mas o terreno foi arrematado em 2003 num leilão, e o escritório Andrade Morettin criou um projeto de museu vertical que agradou ao instituto. No momento trabalham nele 150 pessoas.

O edifício terá sete pavimentos de pé-direito duplo para exposições com 1.200 metros quadrados e inclui um cineteatro, uma biblioteca, salas de aula para cursos, loja, um café e um restaurante. O projeto é todo sustentável e usa elevadores e escadas rolantes que reutilizam a própria energia, com economia de até 75%. O edifício terá aquecimento solar para toda a água usada em cozinha e banheiros.

A previsão de entrega da obra é 31 de maio de 2017. O IMS Paulista deve ser inaugurado no dia 25 de julho. “O IMS está fazendo jus a São Paulo”, declarou Flavio Pinheiro.

À esquerda, lâminas de vidro da fachada são fixadas sobre a estrutura metálica. Acima, fachada renderizada prevista em projeto Perspectiva interna do edifício, que terá vista para a Avenida Paulista

Ficha técnica
Nome da obra: IMS Paulista
Localidade: São Paulo
Área do terreno: 1.000 m²
Área construída: 7.100 m²

Incorporação e construção: IMS
Arquitetura: Andrade Morettin Altura do edifício: 45 m
Tipologia: edificio cultural/museu Túnel de vento: Laboratório de Aerodinâmica das Construções
Análise dinâmica:
 GOP
Projetista estrutural: Engenheiro Yopanan Rebello – Ycon
Projeto de fundações: Moretti Engenharia
Fundações: Anson
Consultoria para Dosagem de Concreto: Celso Sbrighi
Formas e escoramento: Peri Brasil Projeto preventivo, hidrossanitário e elétrico: LAZ
Projeto de esquadrias: Front/Jetacorp
Projeto de climatização: Greenwatt
Elevadores: Otis
Aço: Gerdau
Consultoria de sistemas especiais: engenheiro Alexandre Martins
Construtora: Alle Engenharia
Gerenciamento geral do empreendimento: engenheiro Jose Luiz Canal

Por Dagomir Marquezi

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