Esquadrias especiais proporcionam alto desempenho, além de estética diferenciada. Mesmo assim, podem ocorrer falhas que provocam infiltrações

Enquanto as esquadrias vendidas nos home centers são fabricadas em tamanho padrão, as especiais são aquelas produzidas sob medida, de acordo com o projeto de cada obra. Mais do que preencher um vão livre, elas devem atender a necessidades estruturais, estéticas, acústicas e térmicas. Porém, mesmo quando o cliente decide por um produto de excelência e personalizado como esse, é possível ocorrer infiltrações – e, com elas, surgem os vazamentos. Muitas das patologias verificadas nos caixilhos após a instalação estão relacionadas, segundo os fabricantes, aos processos de instalação. Para levantar as causas e as soluções desse problema que vem ocorrendo com uma certa frequência, inclusive em edifícios de grandes dimensões e alto grau de complexidade de projeto e execução, realizamos um debate técnico que contou com a participação de Luis Claudio Viesti, da Afeal (Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio) e de cinco representantes de empresas da área. Da fabricação à instalação, veja as questões mais importantes a serem consideradas para garantir a melhor condição de escoamento e drenagem – e obter, assim, a vedação total da entrada de água.

Mesa-redonda
Quais as características dos produtos e das técnicas que evitam vazamentos?
EMERSON RODRIGUES 
A esquadria tem de ser estudada não apenas para um ambiente específico. Ela deve contemplar também aspectos relacionados às características geográficas e climáticas da gleba onde será implantado o edifício. Cada região tem um comportamento diferente. Na questão do vazamento, é importante saber o que se requer dessa esquadria: a que altura será instalada em relação ao solo? Qual exposição terá (ao sol, ao vento, à chuva)? Dependendo desse grau de exposição, deve ser adaptado o sistema de dreno e sua respectiva distribuição ao longo do perfil da esquadria. Usamos um sistema gravitacional: a água percorre um circuito em cima de um trilho, cai numa antecâmara e sai para fora da janela, evitando que sofra uma certa inércia, se retroalimente e caia para dentro do ambiente. O que torna eficiente uma esquadria é o dimensionamento de volumetria de líquido. Há linhas de produtos no mercado que têm vazão de cerca de 8 litros por minuto, suficientemente boa.
VITOR REIS Por isso, a importância dos ensaios. Na Schuco, os produtos são testados em um laboratório na Alemanha. Muitas vezes um produto é dimensionado, calculado e, quando chega ao ensaio, não tem o desempenho esperado e exigido pelas normas. Então, são feitos ajustes e todo o sistema de escoamento é repensado até cumprir os objetivo do projeto atendendo às questões técnicas necessárias.
LUIS CLAUDIO VIESTI Além da questão do desenvolvimento do produto, precisamos considerar a parte dos encaixes. O produto é colocado de acordo com a metodologia que a norma NBR 10821 estabelece, dentro das condições de altura, pressão, tipologia e dimensões. Para isso são feitos ensaios laboratoriais que nos levam a entender o conceito da estanqueidade. A instalação adequada é essencial para o desempenho correto da esquadria. Se não estiver bem resolvida, certamente dará origem a problemas de vazamento que acabam por interferir em outros elementos da construção, danificando paredes e gerando estufamento de superfícies cobertas por camadas de tinta.
ALEXANDRE BONATO Como fabricante de vidros, eu sou um coadjuvante da esquadria. E é engraçado reparar que, sempre que há um problema de vazamento, o pessoal chama a gente e fala: “Seu vidro está vazando”. Em 99% dos casos, o problema é resultado de uma falha durante a instalação. De nada adianta conceber um sistema eficiente, que atenda à norma de escoamento de 8 litros por minuto, se o técnico que instala o produto colocar, por exemplo, a gravidade voltada para dentro do edifício. Quando chove, a vazão da água vai para dentro de casa.

Mas quem erra nesse caso?
BONATO
 A equipe de instalação.
VIESTI É preciso existir um comprometimento entre o pessoal de obra e a empresa instaladora do produto. Eu falo empresa instaladora porque hoje os fabricantes também trabalham com terceirizadas. Mas essas empresas têm de estar interligadas com a gestão global da obra. Por exemplo, não se pode instalar um perfil de esquadria em um contramarco mal chumbado. A irregularidade da superfície vai gerar uma série de frestas que facilitarão as infiltrações. Esse problema não é da esquadria em si, mas das condições da base sobre a qual foi realizada a instalação. Por isso, é fundamental, antes de instalar a esquadria, aferir as condições da base e requadramento do vão sobre o qual será fixada. É um trabalho em cadeia em que um fase depende da excelência da execução da outra.

Quem acompanha nesse caso?
VIESTI
 A empresa fabricante deve fazer o acompanhamento ou determinar projetos de instalação para a primeira fase, detalhando como deve ser feita até a colocação das pingadeiras. É preciso entender os gabaritos, determinar os vãos corretos, checar as tolerâncias de instalações e as folgas. Se o produto (esquadria) é pré-dimensionado e fabricado segundo o projeto e depois de entregue não entra no vão, começa o retrabalho. Além dos gastos imprevistos nessas adaptações e atraso no cronograma da obra – o que aumenta custos, sem dúvida -, essa é uma das possíveis causas dos vazamentos.
RODRIGUES Para combinar o melhor desempenho do produto com uma instalação bem-feita, hoje temos 68 lojas que recebem um material técnico elaborado por nós, para que consigam perceber o que é uma folga de vão, um recuado perfeito. Tudo de acordo com um alto nível de exigência. O instalador, no nosso caso, é homologado pela Claris. Ele sabe como agir em determinadas situações. Mas isso não é tudo. Muitas vezes a causa de um vazamento é a situação da alvenaria imposta pela obra. O resultado daquele primor que não existiu, devido a “ene” fatores, é desastroso: pressa, má qualidade do material ou mesmo a incidência do vento acabam por gerar as falhas de desempenho. Existem obras que eu calculo que tenham de ter FCK (resistência) de 30 MPa por causa da ação do vento. A movimentação fragiliza a estrutura de poliuretano da esquadria, e abrem-se as folgas. E aí, é como o Bonato falou, “o problema é do vidro” (risos).
BONATO O duro é que, às vezes, com um dreno ruim – que, por causa da instalação, acumula água – alguns vidros podem estragar. Se for um vidro laminado, essa água começa a penetrar, delamina e, depois, a responsabilidade do vazamento é indevidamente atribuída à má qualidade do vidro. Isso é um erro.

O material usado no perfil das esquadrias ajuda no quesito vedação?
RODRIGUES
 Sim, mas depende, como o Viesti ressaltou, da qualidade dos encaixes. No nosso caso, temos a termofusão nos perfis. Temos o corte a 45 graus, porém nosso perfil é colado um ao outro, e isso garante uma estanqueidade tanto no marco quanto na folha. Mas a gente pode ter problema de inundação do trilho e a água transbordar para o lado interno, sim. Se vem uma chuva como aquela que deu em Campinas em 2015, que foi uma microexplosão que eles falam, até a melhor esquadria pode incorrer nisso. Foi uma situação atípica, mas em um prédio nosso entrou água em dez apartamentos. Então, esse ponto do encaixe dos perfis precisa ser muito bem considerado.
IGOR TOSCANI Cabe a nós fabricantes, sistemistas e fornecedores, inserir todas essas informações sobre as esquadrias especiais em fase de projeto, não em fase de orçamento, quando a obra já está chegando ao revestimento.

 

Na fase de projeto existem muitos erros?
TOSCANI 
Não chegam a ser erros. O problema está na grande gama de opções disponíveis no mercado. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Se o fabricante de vidro oferece um novo produto, com melhor desempenho, como eu faço para saber mais sobre esse vidro? Nós (fornecedores) é que temos de abastecer engenheiros e arquitetos com essa gama de opções e oferecer, em fase de projeto, a melhor opção para cada caso. Por exemplo, nossa equipe acompanha a instalação dos contramarcos em obra. Digamos que eu tenha 100 contramarcos para instalar. Instala-se o primeiro e, a partir dele, dá-se o aval para continuar o restante da obra. Se o primeiro não recebeu aval, arrancamos tudo e mandamos um novo. Assim, garantimos o padrão de instalação desde o início.

É comum ter de reinstalar os produtos?
TOSCANI
 Não, graças a esse acompanhamento durante a obra. Mas pode acontecer. A refação chega a 20%.
RODRIGUES A gente não está muito longe disso. Um contramarco quando é bem planejado e fixado com estroncas (sarrafos que garantem que a esquadria esteja no esquadro durante a instalação) entra quase como um gabarito dentro do vão. Nós usamos 10 milímetros de folga em relação ao vão, 5 para cada lado, para poder ter espaço de massa de poliuretano, espaço onde ela vai se desenvolver em um tamanho determinado para que feche esse vão de forma satisfatória.

Por que é cada vez mais comum eliminar o contramarco das esquadrias? É uma tendência?
RODRIGUES
 Esse é um padrão europeu para o PVC. Nosso pessoal, por tradição, já trabalha com poliuretano (que substitui o contramarco) muito bem. A instalação é bastante rápida, mas claro que há prós e contras. O contra seria que não mandamos um gabarito para a obra e nós temos de supervisionar cada uma delas para que o requadramento seja exato.
CAMILA RODRIGUES Os sistemas da Schuco também foram desenvolvidos para não ter contramarco porque na Europa não se usa mais esse elemento. Mas lá o construtor consegue deixar o vão preparado, alinhado, perfeito para o fabricante vir e instalar a esquadria. Aqui, infelizmente isso ainda é uma realidade distante. Também temos um caderno específico, com desenhos técnicos, para dar apoio ao fabricante. Mas você dá o desenho e, mesmo assim, na hora da execução, ainda podem ocorrer falhas.

Por que ninguém lê manual no Brasil?
CAMILA
 O pessoal fala “ah, eu tô acostumado, é um CM60”. Mas não é bem assim porque cada projeto tem seus detalhes.
REIS No nosso caso, o índice de refação é inferior aos 20%. Nós atuamos na fase de projeto, fabricação e instalação com acompanhamento. Nosso fabricante deve ser homologado e a gente acompanha a fabricação, verificando se as esquadrias estão feitas de acordo com as tolerâncias e os dimensionais permitidos, e também a obra, onde são feitos os relatórios mensalmente, mostrando o que está errado tanto para o fabricante quanto para a construtora, para evitar patologias futuras.
VIESTI O que eu vejo no Brasil é uma questão de cultura. Se analisarmos os empreendimentos de acordo com as fases de execução, podemos verificar que, na hora dos orçamentos, as esquadrias são um dos últimos itens a serem avaliados.

E com qual cultura vocês sonham para mudar a realidade?
VIESTI
 A cultura do conhecimento, da exigência do próprio cliente. Ele precisa saber o que pedir. Nós somos capazes de desenvolver produtos e tipologias de acordo com qualquer sistema que a obra possa exigir ou queira trabalhar. No contexto de desempenho, estrutural ou estético, na condição que seja – PVC, alumínio, vidro -, com os componentes que sejam. É preciso mostrar ao cliente que você não vende “peso ou quilo”, como num açougue. Você vende desenvolvimento. Você vende engenharia.
TOSCANI Só para complementar, nós também dependemos de informações de quem fabrica o vidro. Recentemente, finalizamos uma obra em Curitiba que teve a necessidade de um vidro com câmera, onde estava inserido o gás argônio para evitar embaçamento. Nosso fornecedor trouxe o vidro, e eram células. Uma vez inseridas essas células que definem uma fachada com a fita VHB, não se retiram mais esses vidros. O material foi entregue na fábrica, fizemos a instalação e toda a montagem e, dois dias antes do transporte, o fornecedor tdo vidro nos contatou e disse: “Verificamos que a obra onde será instalado o vidro é em Curitiba. Com a oscilação de altitude durante o trajeto até a obra, o vidro deve quebrar”.
BONATO Nesse caso, seria necessária uma equalização de pressão para o transporte.
TOSCANI Mas eu, como fabricante, jamais saberia disso. Ainda bem que o nosso fornecedor foi ativo e disse “agora vamos ter de inserir as válvulas” – e assim foi feito e tudo seguiu tranquilamente.
BONATO É por isso que a esquadria deve ser pensada como um sistema, que envolve estanqueidade, eficiência energética e isolamento acústico. Numa rua de região central, falando de um hospital onde a norma me pede um isolamento acústico mais efetivo, deve-se trabalhar com duas lâminas de vidro, às vezes três. E cada vidro com uma espessura diferente. Só que ninguém pensa nisso e, quando chega a hora de colocar o vidro, alguém fala “seu vidro não pode passar de 8 milímetros de espessura, porque o caixilho já está lá”. Às vezes, especificamos: precisamos de um PVB acústico, próprio para corte de ruído. A resposta é: “Não, eu ponho dois comuns e dá na mesma”. Mas não dá. Não existe mais espaço para dar jeitinho. É técnica. Meu sonho é que todo mundo conheça a NBR 7199 ou a NBR 10821 ou a NBR 6123, das isopletas (linhas de igual velocidade básica do vento). Não é simplesmente saber que a norma existe e escrever no caderno de obra. Deve-se ler, entender e aplicar.
VIESTI Hoje temos a NBR 15575, que fala sobre o desempenho dos materiais das edificações e manutenção. A norma estabelece que as esquadrias entre vãos devem durar de 20 a 30 anos; e as fachadas, cortinas, de 40 a 60 anos. E o que devemos fazer para alcançar essa condição de vida útil? São as tais manutenções.

E quais os erros do projeto que ocasionam problemas de vazamento?
TOSCANI
 Em fase de projeto não tem como você ter o erro, porque aquilo já foi estudado. Após o projeto sim, pode haver erro de fabricação, como uma usinagem malfeita.
REIS No projeto, um erro que pode ocorrer é o mau dimensionamento, quando o projetista erra por não saber a pressão de vento atuante no edifício – ou as pressões de água que essa esquadria vai ter de suportar. É por isso que o projeto tem de levar em consideração as dilatações térmicas que esse produto vai sofrer, as deformações, porque uma esquadria mal dimensionada vai ter uma deformação excessiva, onde as vedações vão perder o contato. E ali vai ser ponto de infiltração de água.

Por Lidice-Bá e Marília Muylaert

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