Especialistas apontam razões para o crescimento dos selos verdes na construção

Entre 2015 e 2016, a procura pela certificação ambiental de construções continuou crescendo no Brasil, apesar do momento de crise no setor. Agora, a expectativa é de expansão a partir de 2017. No país, os principais selos que atestam o grau de comprometimento dos empreendimentos com o meio ambiente e a responsabilidade social são o Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), a partir da certificação francesa Démarche HQE (Haute Qualité Environnementale), obtido por meio da GBC Brasil (Green Building Council), com base nos Estados Unidos; e o Aqua-HQE, desenvolvido e aplicado no Brasil exclusivamente pela Fundação Vanzolini.

Essas certificações não são obrigatórias pela legislação brasileira, mas a busca por elas é fomentada tanto por uma necessidade de colaborar com o meio ambiente quanto de reduzir custos operacionais e melhorar a imagem das empresas no mercado. Os selos atestam que um empreendimento adota medidas sustentáveis e ecologicamente corretas na obra e no cotidiano do edifício. E pode virar commodity na hora da venda e da revenda do imóvel.

Em 2016, um estudo feito com base nos dados do Geoimóvel, dos mercados corporativos do Rio de Janeiro e São Paulo, comparou o comportamento dos ativos classificados como A e A+, que possuem equivalência com os empreendimentos com certificação Leed. A pesquisa apontou que a taxa de vacância de edifícios certificados no Rio de Janeiro foi 7% menor do que naqueles sem certificação. Em São Paulo, esse índice sobe para 9,5%. A pesquisa também mostrou que os empreendimentos certificados agregam valor ao investimentos para locação. No Rio de Janeiro, os valores são em média R$ 28,9/m²/mês mais altos do que os não certificados. Para São Paulo, os certificados aumentam, em média, R$ 10,4/m²/mês o valor do preço pedido de locação. Os números se referem ao segundo trimestre de 2016.

Essa grande procura pelos selos verdes coloca, hoje, o Brasil em 40 lugar no ranking mundial de certificações Leed, atrás de Estados Unidos, China e Índia. Na América Latina, somos o país líder. “Desde 2007, quando os processos começaram no Brasil, registramos 1.225 projetos, e 393 já foram certificados até dezembro de 2016”, afirma Felipe Faria, diretor executivo da GBC Brasil, certificadora Leed. O executivo conta que há projetos em todos os estados brasileiros, exceto em Tocantins.

Por sua vez, a certificação Aqua-HQE, lançada em 2008, fechou 2016 com 427 prédios certificados. Segundo Bruno Casagrande, responsável pelo desenvolvimento de negócios de certificação Aqua-HQE na Fundação Vanzolini, a mentalidade do construtor vem mudando bastante nos últimos anos. “Hoje, muitos empresários estão incorporando a questão da sustentabilidade no DNA da empresa e já fazem questão de adotar esse comportamento como ferramenta de gestão”, diz. Em 2014, o Aqua-HQE foi totalmente adaptado para as necessidades específicas do mercado nacional, promovendo a fusão entre os referenciais técnicos brasileiros e franceses.

Custo-benefício das certificações
Esse cenário aponta para um momento de mudança do setor, quando os interesses econômicos se unem aos ambientais. Isso porque, apesar de o custo da construção ser de 0,5% a 15% mais caro, em média, a valorização estimada na revenda é de 10% a 20%, além de o investimento proporcionar até 30% de redução no valor do condomínio e diminuição média de 9% no custo de operação durante toda a vida útil do imóvel, de acordo com dados da GBC Brasil, da Fundação Vanzolini e de pesquisas da consultoria Colliers International. Felipe Faria, da GBC Brasil, explica que o custo é determinado pela antecedência de projeto, tamanho do empreendimento, experiência da equipe interna de projeto em gestão ambiental, quanto se pretende investir, técnicas e tecnologias que serão adotadas, estudo integrado, consultorias e a certificação em si.

Em praticamente todas as incorporadoras de alto padrão no país as certificações já não são mais um diferencial. “Fazem parte do cotidiano estratégico, como na Cyrella, na Tishman Speyer, na São Carlos, na W Torres, por exemplo”, diz Faria. Mesmo assim, os prédios verdes ainda representam menos de 2%, em média, de todos os lançamentos imobiliários que surgem diariamente nas cidades brasileiras, de acordo com o GBC. “Ainda há resistência, até por parte de construtoras renomadas. Entretanto, a maioria deseja a certificação, está buscando informações sobre isso, a fim de obter financiamentos externos para seus projetos”, conta Bruno Casagrande, da Fundação Vanzolini. É uma questão cultural. “Na França, esses selos são obrigatórios para qualquer construção. Lá não se vende nada sem certificação.” Casagrande acredita que essa cultura ainda irá se disseminar com força no Brasil. “Também precisamos de políticas públicas que incentivem a demanda pelos selos. Linhas de crédito específicas para os processos de certificação, tanto públicas quanto privadas, além de incentivos fiscais”, completa.

Casagrande explica que alguns empresários se animaram após 2014, quando construtores de green buildings começaram a sair espontaneamente na mídia em reportagens sobre “prédios verdes”, pois queriam a mesma divulgação. Porém, nem todos estavam dispostos a dedicar tempo e dinheiro às mudanças necessárias para obter as certificações e só desejavam usar os selos para campanhas de marketing, gerando o termo greenwashing, ou maquiagem verde. “A expressão refere-se ao mau uso dos conceitos de sustentabilidade na construção civil e ao ””””””””joio do trigo”””””””” entre consultores e certificadores”, afirma Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech Engenharia, consultor de sustentabilidade na construção. De acordo com Ferreira, nem todos são sérios, e o construtor que apenas se preocupa com o marketing, praticando o greenwashing, não se garante no mercado com um selo qualquer. Para Marcelo Nudel, arquiteto e diretor da Ca2 Consultores Ambientais Associados, o Brasil está engatinhando na busca de certificações e o volume de obras que obedecem apenas às normas básicas ainda é muito alto. “Austrália, Reino Unido, Alemanha e Singapura são países que investem muito em construções sustentáveis”, diz. Nudel também afirma que nas legislações desses países já estão embutidas as exigências fornecidas pelas certificadoras, vinculando-as naturalmente à cultura de construção.

Segundo Marcelo Nudel, as construtoras brasileiras começaram a investir em certificações não obrigatórias há uma década, mas tudo vinha de fora, com parâmetros estrangeiros, o que complicava a adaptação local. “Até 2013, vivemos um boom econômico e imobiliário, ao mesmo tempo que os primeiros prédios certificados já tinham passado por um processo de adaptação.” Após 2014, todos os grandes empreendedores aderiram às certificações e as incorporadoras de peso montaram equipes internas de gestão ambiental de obras. “Esse foi um sinal de maturidade, pois manter equipe própria atende às demandas da cultura da empresa e facilita todo o processo”, afirma Nudel.

Uma das companhias que seguiram esse caminho foi o Grupo Toctao, de Goiás, que atua em diferentes setores da engenharia, como prestação de serviços de construção, energia, concessão de saneamento, urbanismo e incorporação imobiliária. Cinthia Martins, gestora ambiental do grupo, conta que a empresa começou a investir em sustentabilidade em 2007. “Começamos a obra de um condomínio residencial em Goiânia e pensamos em impactar menos a área no entorno.” Com base nessa premissa, a construtora desenvolveu também um sistema de reaproveitamento da água da chuva para descargas, com armazenagem debaixo da quadra de esportes. “A partir daí, outras obras surgiram, mas a questão já estava incorporada”, diz a gestora.

Retorno do investimento
Cinthia Martins afirma que hoje as principais obras do grupo têm surgido graças aos selos. “Nossos parceiros mais sólidos nos procuram justamente porque somos certificados, auditados anualmente por organismos independentes, que nos atestam sobre aquilo que afirmamos oferecer.” Para ela, as certificações dão segurança aos investidores. Cinthia explica que quem constrói um shopping center, por exemplo, tem vários agentes financiadores, além da mídia voltada ao empreendimento. “Esse player exige eficiência técnica, de prazos e qualidade. E a segurança de que não terá nenhum passivo ambiental ou social para enfrentar no futuro.” A executiva explica que esse cliente também deseja manter o melhor dos relacionamentos com a vizinhança, do primeiro tapume da obra instalado até a inauguração das lojas.

Hoje, o grupo traz em seu portfólio prêmios como o CBIC de Responsabilidade Social 2015 e 2013, e o CBIC de Inovação e Sustentabilidade 2016. “Tudo isso veio graças a um investimento direto em consultoria, treinamento, mudanças internas”, diz a gestora. Cinthia afirma que há um trabalho constante de monitoramento de água, ruído, ar, contratos externos e o custo com a equipe de controle ambiental, formada por dez profissionais. “Estamos sempre pesquisando soluções com foco na inovação tecnológica para a empresa. Mantemos um auditor ambiental em cada obra.”

Cinthia acredita que a área terá cada vez mais protagonismo dentro das construtoras de todos os portes. “Quem não investir seriamente vai perder clientes. As certificações espontâneas dão um parâmetro de mudança e colocam a empresa à frente dos concorrentes”, afirma. Mas ela faz um alerta: é preciso aplicar as normas todos os dias, não apenas na véspera da auditoria, como algumas empresas que praticam o greenwashing costumam fazer. “Nossos sistemas funcionam, a redução de custos é efetiva em todo momento. As normas fazem parte de nosso cotidiano, são reais”, diz. Cinthia esclarece que há um trabalho interno intenso, que vai muito além de contratar uma consultoria, solicitar a certificação e depois não investir mais em sustentabilidade.

A construtora mineira MRV é outro exemplo de adesão à onda verde. Ao construir empreendimentos para o programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal, decidiu expandir as ações de sustentabilidade nas obras e nos apartamentos para mostrar aos clientes que era diferente, mas sem mexer nos preços, que são tabelados. A empresa passou a usar madeira certificada e de reflorestamento, reduziu o consumo de energia, promoveu nos projetos de apartamentos a iluminação natural e a eficiência energética. “Começamos o processo de adoção de selos ambientais em 2010, com um piloto de gestão de resíduos”, conta José Luiz da Fonseca, gestor executivo de Segurança, Saúde e Meio Ambiente na MRV, responsável por conduzir a implantação dos selos ambientais na companhia.

Atualmente, a equipe de Fonseca conta com 500 profissionais que atendem às demandas das obras em todo o território nacional. “Nos últimos três anos, a MRV investiu R$ 800 mil em certificações abrangendo consultorias, auditorias, sistemas, gestão de documentos”, afirma o executivo. Segundo ele, para cada real investido em certificações, o retorno é de R$ 3 a R$ 4. “Com as certificações reduzimos a zero as multas ambientais da empresa.” A companhia também economizou 48% com gastos em exames ocupacionais e teve 15,21% registros a menos de acidentes com mais de 15 dias de afastamento.

Outra estratégia foi desenvolver os próprios selos verdes: MRV + Verde e Obra Verde MRV, que geraram redução de 12% nos gastos e no descarte de resíduos. “Queríamos alinhar as normas do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat às ações das certificadoras”, diz Fonseca. O selo MRV + Verde reconhece as soluções sustentáveis realizadas nos empreendimentos junto aos moradores e inclui ações de adequação às condições físicas do terreno, dispositivos economizadores, de desempenho térmico e acústico que atendem às exigências de conforto térmico especificadas na Norma de Desempenho NBR 15575. Já o selo Obra Verde MRV observa essas ações nos canteiros de obra com o objetivo de diminuir o impacto da construção no meio ambiente e melhorar a qualidade de vida dos funcionários.

Fonseca afirma que, em três anos fazendo certificações, a empresa emitiu mais de 800 documentos, que vão sofrendo ajustes à medida que as normas entram em conformidade. “Passamos por auditorias a cada seis meses, em regime de manutenção, e a cada três anos fazemos a macro pós-certificação, como exigem todos os selos.” Para o executivo, esse é um caminho sem volta, uma necessidade do setor. “Somos uma empresa de capital aberto, e muitas das certificações voluntárias são exigidas pelos financiadores, que se sentem mais seguros”, afirma. De acordo com Fonseca, o cliente final ainda não se dá conta de todos os benefícios de um imóvel mais sustentável e continua decidindo a compra da casa própria pelo preço mais baixo – geralmente 5% a menos, nos imóveis do programa MCMV. “Acredito que esse quadro mude em breve, quando os atuais moradores perceberem que esse valor agregado tem um impacto positivo na conta de água, luz, no conforto térmico e acústico”, completa Fonseca.

“Quem não investir seriamente vai perder clientes. As certificações espontâneas dão um parâmetro de mudança e colocam a empresa à frente dos concorrentes”
Cinthia Martins, gestora ambiental do Grupo Toctao

Certificar é sempre a solução?
De acordo com Marcelo Nudel, da Ca2 Consultores Ambientais Associados, um processo de consultoria leva o tempo que o projeto durar, em média de dez a 12 meses, mais o período de emissão da documentação pela certificadora. “O consultor observa o projeto, orienta a demanda, seleciona a melhor empresa certificadora para cada ação e produz as diretrizes para o projeto ser desenvolvido dentro da empresa”, explica. Ao longo das fases, há revisões periódicas e, eventualmente, algumas estratégias podem mudar.

Segundo Nudel, nem todas as construtoras precisam de certificação. Ele diz que o consultor precisa ser ético para não recomendar a certificação quando a empresa não tem porte, equipe interna e recursos para investir nas conformidades exigidas pelos selos, incluindo profissionais capacitados para treinar, controlar e mudar práticas de obras. “Nem sempre é o porte, muitas vezes é a mentalidade da companhia que inviabiliza a certificação. É preciso querer mudar, senão é apenas greenwashing.” Nesse caso, afirma o consultor, as chances de dar errado são enormes, porque dificilmente a empresa cumprirá as regras exigidas.

Luiz Henrique Ferreira, da Inovatech Engenharia, afirma que há três tipos de empresa que buscam certificações ambientais. A primeira recorre à chancela de sustentabilidade como um diferencial competitivo no mercado. A segunda entende a certificação como uma ferramenta de gestão e segue todos os processos, investindo nesse nicho internamente. E a terceira observa a certificação como uma ferramenta de gestão de riscos, interessante para obter financiamentos. “Dependendo do perfil de cada companhia, o processo de certificação se dará de um jeito”, diz. Segundo Ferreira, as empresas que se certificaram pela primeira vez há dez anos agora colhem os frutos desse investimento, independentemente do objetivo inicial da certificação. Ele afirma que, aquelas que se anteciparam e usaram legitimamente as certificações como ferramenta de marketing, hoje têm retorno econômico e de imagem. “Muitos players sérios entraram após 2012, e os resultados já começaram a surgir. E quem só desejava fazer greenwashing desistiu do processo.”

De acordo com o consultor da Inovatech, certificação pressupõe envolvimento intenso e constante do cliente. Ele pode contratar uma consultoria para estar em conformidade com as regras no momento da auditoria, mas não irá se preocupar com o futuro. “Desse jeito não funciona e os resultados não serão duradouros”, completa. Ferreira acredita que o mercado vive atualmente um momento mais maduro e cauteloso. “É hora de mensurar a sustentabilidade além da certificação. Mostrar os resultados para o usuário final na diminuição da conta do condomínio, na economia de água e luz de cada unidade.”

Marcelo Nudel, da Ca2, também pensa assim. “Vivemos um primeiro momento pós-certificação, uma vez que o selo em si não determina a plenitude sustentável de um empreendimento.” Para o consultor, na última década o Brasil saltou em melhorias na oferta de produtos sustentáveis, como madeira, tintas, bacias sanitárias, chuveiros, materiais com base reciclável, entre outros. “Ao mesmo tempo, o mercado se capacitou para trabalhar com a gestão ambiental”, diz. Ele afirma que há uma nova geração de arquitetos, engenheiros, técnicos, empreendedores e trabalhadores de base que está sendo formada desde criança com outra mentalidade. “São pessoas que de fato acreditam na causa da sustentabilidade e observam seus efeitos na sociedade.” Segundo Nudel, esses profissionais estão assumindo postos em todos os setores da indústria construtiva e, em uma década, o segmento irá se renovar naturalmente com uma mentalidade sustentável autêntica.

O futuro dos selos
Entre os empreendimentos que investem em certificações verdes, há de tudo um pouco. Edifícios comerciais, residenciais, industriais e até os estádios da Copa de 2014 foram registrados para a certificação Leed, tanto nas novas construções quanto nas reformas. Segundo Felipe Faria, diretor executivo da GBC, de 2013 para cá a demanda por certificação Leed se expandiu para o setor público, como escolas, museus, hospitais, agências bancárias. E também para os mesmos segmentos de empreendimentos privados. “Grandes clientes de outros setores têm feito o mesmo, como Coca-Cola, Starbucks, Renner e O Boticário”, completa. Além de Leed e Casa Azul, a empresa está desenvolvendo o certificado Well no Brasil, ligado à saúde e ao bem-estar no ambiente construído.

Para o diretor da GBC, está despontando uma visão de modelo de negócios que prevê a inclusão de custos de operação de gestão ambiental e certificações na análise total do investimento. “Em um prédio novo, de alto padrão em São Paulo, por exemplo, esse custo pode ficar em até 15%”, afirma. Quando a obra termina, ele é repassado para o condomínio e gera a demanda do built to suit – uma operação imobiliária em que a construção de um determinado imóvel é feita sob medida para um futuro locatário que, por sua vez, se compromete a alugar o imóvel depois de pronto, delegando a administração também à incorporadora. Esse tipo de negócio mantém a incorporadora à frente daquele edifício por pelo menos 20 anos. “Logo, um prédio mais enconômico, sustentável e funcional oferece a possibilidade de enconomia à empresa desde o princípio”, afirma Faria.

Crescimento acumulado da certificação Leed no Brasil

 

A certificação do terminal marítimo Itaoca Offshore, no munícipio de Itapemirim, no litoral sul do Espírito Santo, desencadeou um efeito cascata em outros complexos portuários, ainda mantidos em sigilo

 

O diretor executivo da GBC reclama da carência de fornecedores de produtos certificados para suprir uma cadeia construtiva verde. “Acredito que o mercado deva se fortalecer, abarcando mais setores, mas ainda o ciclo construtivo não se fecha.” Para ele, um mercado mais pujante puxa a régua técnica para motivar os fornecedores a buscar, eles próprios, certificação. “Também temos a expectativa de novas políticas públicas que incentivem o uso de energias renováveis, selos de eficiência energética e reúso de água”, completa Faria.

De acordo com Bruno Casagrande, responsável pelo desenvolvimento de negócios de certificação Aqua-HQE, na Fundação Vanzolini, o momento é de expansão para clientes de setores diversificados. “Recentemente certificamos a primeira infraestrutura portuária no Brasil, o porto de Itaoca, no Espírito Santo”, conta. O porto fica na cidade de Itapemirim, no litoral sul do estado, e o referencial de certificação inclui requisitos de um sistema de gestão de portos, além de critérios e indicadores de desempenho ambiental e de qualidade de vida para a avaliação desse tipo de construção. O know-how gerou outras demandas portuárias, ainda em contrato sob sigilo. “Acredito que temos evoluído bastante, mas realmente faltam incentivos para que as incorporadoras invistam pesadamente em certificação”, diz Casagrande.

Guy Ladvocat, gerente de Certificação de Sistemas da ABNT, afirma que hoje a principal certificação brasileira é o PBQP-H. “O selo do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat é requerido para todos os financiamentos públicos, como os da Caixa Econômica Federal”, diz Ladvocat. Entre as certificações não obrigatórias, o gerente destaca a vLeed, que vem tomando um vulto bastante significativo no Brasil.

Ladvocat conta que no início do programa o PBQP-H também sofreu resistência por parte do mercado. “Começamos com várias categorias e níveis e, ao longo dos anos, as adequações foram feitas conforme a Caixa nos informava sobre as exigências necessárias.” Para ele, toda empresa deve se preparar para as certificações, e pontua que sempre há novas normas obrigatórias, que se atualizam, ou são retiradas do acervo, conforme as tecnologias e técnicas evoluem. “Acredito que os selos voluntários terão uma forte demanda nos próximos anos pela própria exigência do mercado. Para as normas obrigatórias, o caminho é o mesmo”, completa Ladvocat.

Selos verdes – Modo de usar

CONHEÇA OS CERTIFICADOS NÃO OBRIGATÓRIOS MAIS UTILIZADOS NA
CONSTRUÇÃO CIVIL BRASILEIRA E SEUS PRÉ-REQUISITOS PARA A CERTIFICAÇÃO

CERTIFICAÇÃO LEED
A certificação Leed (Leadership in Energy and Environmental Design) foi criada em 2000 pelo USGBC (Conselho de Construção Sustentável dos Estados Unidos) para orientar e atestar o comprometimento de uma edificação com os princípios da sustentabilidade para a construção civil – antes, durante e depois da obra. É usada em mais de 165 países como a principal plataforma adotada para green buildings. A certificação é válida para todos os edifícios e pode ser aplicada a qualquer momento no empreendimento. No Brasil, a promoção de certificação internacional Leed é gerida pela GBC Brasil (Green Building Council) desde 2007. Os projetos que buscam a certificação Leed são analisados por oito dimensões. Todas possuem pré-requisitos (práticas obrigatórias) e créditos (recomendações), que, à medida que são atendidos, garantem pontos à edificação. O nível da certificação é definido conforme a quantidade de pontos adquiridos, podendo variar de 40 a 110 pontos. Os níveis são: Certificado, Silver, Gold e Platinum. As certificações valem para quatro tipos de tipologia: novas construções (BD+C), design de interiores (ID+C), edifícios existentes (O+M) e bairros (ND). De acordo com a GBC Brasil, os benefícios das certificações têm três âmbitos: econômico, social e ambiental. As edificações interessadas em conquistar o selo Leed v4, apresentado em 2012, devem entrar com o pedido de certificação na Plataforma Leed Online, referente ao seu tipo de empreendimento. Em seguida, a edificação cadastrada passa pelo processo de avaliação do GBC, que no Brasil leva em conta sete quesitos:
Uso racional da água.
Aumento de 20% na eficiência energética das novas construções e de 5% a 10% nas edificações já existentes, na categoria Eficiência Energética e Atmosfera.
Redução, reutilização e reciclagem de materiais e recursos.
Qualidade dos ambientes internos da edificação.
Espaço sustentável.
Inovação e tecnologia.
Atendimento a necessidades locais, definidas pelos próprios profissionais da GBC, que variam de empreendimento para empreendimento.

CERTIFICAÇÃO AQUA-HQE
Estabelecida e mantida pelos professores da engenharia de produção da Escola Politécnica da USP, desde 1967, a Fundação Vanzolini é o primeiro organismo de seu segmento a certificar sistemas de gestão no Brasil. Como principal certificadora da construção civil do país, com mais de 20 anos de experiência no setor, integra o IQNet (International Certification Network), presente em mais de 150 países.

Em 2008, a Fundação Vanzolini trouxe da França a certificação de sustentabilidade Processo Aqua-HQE (Alta Qualidade Ambiental). Em 2014, o sistema de avaliação de desempenho ambiental brasileiro (Aqua), versão adaptada da certificação francesa Démarche HQE (Haute Qualité Environnementale), se renovou e promoveu a fusão entre os referenciais técnicos brasileiros e franceses, criando a certificação Aqua-HQE. A partir daí, passou a integrar uma Rede Internacional de Certificação para a sustentabilidade na construção. Desde então, a certificação alcançou 432 edificações, com mais de 75 milhões de m² de área construída e mais de 43 mil unidades habitacionais no Brasil.

A integração dos atores globais do HQE em um ambiente de rede se deu com a Cerway, uma entidade internacional de origem francesa criada para articular as iniciativas globais HQE. Para isso, conta com o apoio do CSTB (Centro Científico e Técnico da Construção da França) e de técnicos e especialistas da Certivéa e da Cerqual, organismos franceses de certificação da construção sustentável, além da equipe técnica da Fundação Vanzolini e de especialistas de outros países que difundem a sustentabilidade na construção civil.

Com a criação da rede a certificação Aqua-HQE, os profissionais da Fundação Vanzolini adaptaram os referenciais técnicos à cultura, ao clima, às normas técnicas e à regulamentação brasileiros, onde 50% das exigências técnicas visam às condições ideais de saúde e conforto e 50% promovem benefícios ambientais.

A certificação Aqua-HQE para edificações baseia-se em 14 objetivos de desempenho, que devem ser atingidos nos níveis Base, Boas Práticas e Melhores Práticas, ultrapassando as exigências que correspondem à regulamentação vigente ou prática corrente, distribuídas equilibradamente em conforto, saúde e baixo impacto ambiental. Ela é concedida por meio de processo de auditorias presenciais pela Fundação Vanzolini em pelo menos três fases estratégicas do empreendimento: pré-projeto, projeto e execução; e na fase pré-projeto da operação e uso e fases operação e uso periódicas (edifício em operação e uso). Os referenciais técnicos abrangem empreendimentos, residenciais e não residenciais.

A avaliação da qualidade ambiental do edifício é feita para cada uma das 14 categorias de preocupação ambiental e as classifica nos níveis Base, Boas Práticas ou Melhores Práticas, conforme perfil ambiental definido pelo empreendedor na fase pré-projeto. Para um empreendimento ser certificado Aqua-HQE, o empreendedor deve alcançar no mínimo um perfil de desempenho com três categorias no nível Melhores Práticas; quatro categorias no nível Boas Práticas; e sete categorias no nível Base. Cada etapa de avaliação dura de um a três dias, conforme a complexidade do projeto.

Registros Leed por estado (10 primeiros)

Perfil mínimo de desempenho para a certificação

Processo de certificação

Confira outros selos disponíveis no mercado brasileiro

FONTES: INOVATECH ENGENHARIA, CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, CENTRO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO
DE EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, CONSELHO MUNICIPAL DE POLÍTICA URBANA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Por Alexandra Gonsalez

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