Segmento popular é a aposta para impulsionar os negócios na Grande Belo Horizonte e no Triângulo Mineiro

O ano de 2016 ficou marcado para o setor da construção civil brasileira como um dos mais difíceis de todos os tempos. Em Minas Gerais não foi diferente. Segundo o Sinduscon-MG (Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais) e o Sinduscon-TAP (Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba), os construtores que atuam na Grande Belo Horizonte e na região do Triângulo Mineiro enfrentaram algumas dificuldades, mas conseguiram manter o equilíbrio nas vendas. Em novembro de 2016, a Pesquisa do Mercado Imobiliário do Sinduscon-MG, realizada pela Brain Bureau de Inteligência Corporativa, coletou dados junto a 250 empresas com atuação em Belo Horizonte e Nova Lima, na região metropolitana da capital mineira. Esse universo representa cerca de 90% dos empreendimentos em comercialização nas duas cidades, correspondendo a mais de 95% das unidades vendidas.

O estudo apontou que o Índice de Velocidade de Vendas fechou novembro em 6,1%. No acumulado dos onze meses, os lançamentos residenciais na capital mineira e em Nova Lima totalizaram 1.987 unidades, enquanto os comerciais, 252 unidades. Nesse período, foram comercializados 2.996 apartamentos e 362 empreendimentos comerciais. O relatório mostrou que, no segmento residencial, o padrão com maior disponibilidade sobre a oferta inicial foi o econômico, com 27,8%. Já o alto padrão apresentou a menor disponibilidade: 14%.

Em relação à região metropolitana de BH, em novembro de 2016 o preço médio do metro quadrado dos apartamentos novos à venda em Belo Horizonte e Nova Lima chegou a R$ 7.572, uma variação de 0,4% em relação aos R$ 7.542 registrados no mês anterior. No acumulado dos 11 primeiros meses de 2016, foi registrado um aumento de 7% no preço médio do metro quadrado, enquanto a inflação captada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no período foi de 5,97%. ‘Esse movimento acompanhou a inflação, mantendo os preços estáveis e os estoques reduzidos’, afirma José Francisco Cançado, vice-presidente da área Imobiliária do Sinduscon-MG.

Segundo Cançado, os indicadores encorajam o empresariado a continuar lançando novas unidades em 2017. “Já há novidades nesse sentido, com um mercado mais regulado e otimista.” Ele afirma que o nicho dos imóveis populares está mais animado, especialmente o setor que atende ao programa do governo federal Minha Casa Minha Vida. “A demanda sempre é maior nesse segmento, com grande déficit na região”, complementa. No nicho popular, o vice-presidente aponta as cidades de Betim, Contagem e Santa Luzia como as mais promissoras da Grande BH. “O mercado tomou um rumo diferente durante o boom imobiliário e praticamente ‘expulsou’ para essas três cidades a oferta de imóveis populares, criando um novo polo de negócios”, diz Cançado.

“Obtivemos uma leve melhora no fim do ano passado, e a tendência é que esse caminho para cima se consolide ao longo dos meses”
Lucas Couto, diretor comercial e de marketing da Patrimar

Players 100% mineiros
A Patrimar, construtora criada 1963, atua com esse público por meio da Novolar, empresa do mesmo grupo, que opera, desde 2000, no segmento popular e de classe média. “Temos direcionado obras do MCMV em Santa Luzia, Betim, Vespasiano e Contagem. Essas quatro cidades têm se destacado nesse nicho”, conta Lucas Couto, diretor comercial e de marketing da Patrimar. Santa Luzia, por sua vez, vem se tornando protagonista para a construtora, e o bairro Chácara Santa Inês desponta como um dos mais promissores depois da mudança da lei de zoneamento. “Lançamos 300 unidades de três blocos no fim de 2016 no Chácara Santa Inês. Tudo está em início de construção nessa localidade”, conta o diretor comercial.

Couto também aponta o município de Vespasiano como uma boa opção para lançamentos de unidades para as classes C e B. Ele explica que a companhia está otimista em relação a 2017. “Obtivemos uma leve melhora no fim do ano passado, e a tendência é que esse caminho para cima se consolide ao longo dos meses.” Para o diretor comercial já há indícios positivos, como as taxas de juros menores, fator fundamental para gerar negócios no mercado imobiliário.

Implantado num terreno de 16.500 m² pela Novolar, empresa da Patrimar voltada para o MCMV, o condomínio Mia Felicità foi lançado em dezembro de 2016. O complexo oferece apartamentos de 1 e 2 dormitórios

Outra construtora que investe no segmento popular é a Emccamp, com 40 anos de atuação no setor. André Campos, vicepresidente da empresa, explica que o foco no programa Minha Casa Minha Vida está centralizado na construção de habitações destinadas aos beneficiados pela faixa 1 da iniciativa, famílias com renda bruta de até R$ 1.800. A construtora é a terceira em volumes de negócios do país ligados à iniciativa do governo federal. Ao todo são mais de 50 mil unidades entregues e em construção nesse segmento.

Campos diz que toda a região metropolitana de Belo Horizonte tem potencial de mercado, mas é preciso planejar e pensar nos vários públicos. “Em todas as cidades há demandas reprimidas, mas Contagem e Ribeirão das Neves oferecem grande potencial para as classes C e B”, afirma. Segundo o vice-presidente, entraves na legislação dos municípios acabam reprimindo os investimentos. “Ribeirão das Neves e Contagem, por exemplo, têm alto potencial de terrenos, mas suas leis não estão adaptadas para o empreendedor da construção”, completa. O executivo espera que os novos prefeitos e equipes técnicas consigam flexibilizar as aprovações para as construções. “Nesses municípios vários bairros têm capacidade para absorver empreendimentos imobiliários, pois há muito potencial desenvolvimentista. Acreditamos que 2017 será um ano para virar positivamente o mercado.”

Em relação a outros empreendimentos, Cançado, o vice-presidente da área Imobiliária do Sinduscon-MG, aponta que a faixa de média renda ainda está desaquecida, aguardando novos investimentos. A alta renda, por sua vez, sentiu menos a crise, com patamares médios de estoques. “Para esse segmento, Nova Lima continua como uma aposta segura fora de BH”, diz Cançado. Ele comenta que os efeitos negativos de 2016 serviram para equilibrar o mercado mineiro. “Alguns players que vieram de São Paulo desistiram no auge da crise. Em todos os nichos os mineiros seguem forte comandando a operação”, completa. Para o executivo, o cenário é de recuperação. “Atingimos um volume de vendas bastante inferior em relação ao que tínhamos há cinco anos. Entretanto, é um mercado muito disputado, com uma margem segura de competitividade”, afirma Cançado.

Vista panorâmica de Belo Horizonte. Para os investidores regionais, todos os municípios da Grande BH têm potencial de crescimento no segmento do MCMV. Terceira maior aglomeração urbana do país, essa região metropolitana tem quase 6 milhões de habitantes

 

Uberlândia é destaque
De acordo com Pedro Spina, presidente do Sinduscon-TAP (Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba), de 2014 a 2016 a região sofreu bastante com a recessão, fechando o ano passado no negativo. “Agora, estamos otimistas em relação a 2017”, diz Spina. Segundo o presidente, o setor está em processo de recuperação, embora ainda dependa de algumas determinações do governo federal para impulsionar os negócios, como o teto de gastos, as linhas de crédito para financiamentos e o controle da inflação.

“A região vive um momento de demanda crescente no segmento popular”, diz Spina. Entre os nove municípios que compõem o Triângulo Mineiro, ele afirma que se destacam no cenário da construção aqueles com mais de 55 mil habitantes: Uberlândia, Uberaba, Patos de Minas, Araxá, Araguari e Frutal. “Com a eleição para prefeito em 2016, as cidades ainda estão se organizando para arcar com as dívidas de gestões anteriores antes de começar a pensar em investimentos no setor.” Os seis municípios têm empreendimentos da iniciativa Minha Casa Minha Vida.

“Ribeirão das Neves e Contagem, por exemplo, têm alto potencial de terrenos, mas suas leis não estão adaptadas para o empreendedor da construção”
André Campos, vice-presidente da Emccamp

A cidade com maior equilíbrio é Uberlândia. “É a que menos tem sofrido”, diz Pedro Spina. Embora também tenha sido atingida pelas perdas de emprego, é um município bastante pujante, de crescimento constante. Wesley Naves, gerente comercial da AZM Construtora, fundada em 2008, também destaca o protagonismo de Uberlândia. “Ali, os números são positivos porque há maior oferta de crédito.” Naves destaca o bairro Jardim Europa, uma localidade em rápida ascensão e valorização, focada no nicho popular. Em relação à classe B, ele aponta outras vizinhanças em desenvolvimento, como Jardim Botânico, Alto Umuarama e Praça Uberlândia.

De acordo com Eduardo Klaus Pfeilsticker, diretor comercial da C&A Construtora, há mais de 20 anos no mercado, a empresa está confiante no crescimento do setor este ano. “Atuamos fortemente nas faixas 2 e 3 do programa MCMV, que contam com uma oferta segura de crédito, portanto, é o recorte de segmento que sofreu menor impacto. Isso nos permitiu ter crédito e tomar decisões gerenciais acertadas. Por isso, 2016 não foi muito desconfortável para a empresa”, diz. A C&A lançará no segundo semestre deste ano cinco empreendimentos em Uberlândia, com destaque para as zonas sul e leste da cidade, que estão se desenvolvendo com novos bairros e empreendimentos variados.

O empreendimento Vertentes, lançado pela AZM Construtora, confirma a pujança de Uberlândia no setor das habitações populares. Unidades de 2 dormitórios – com área de 49 m2 a 57 m2 – são vendidas no bairro Jardim Europa, próximo do anel viário

Além da principal cidade da região, onde a empresa atua também na faixa 1,5 do MCMV, Pfeilsticker aponta Ituiutaba como um município para prestar atenção. O diretor comercial afirma que até 2005 a cidade era praticamente ignorada pelos investidores, mas hoje se tornou um polo universitário e vem crescendo de maneira interessante. “Estamos lançando o Residencial Dubai, com 48 unidades em um projeto mais sofisticado. Há bastante otimismo”, completa.

Retomada da confiança
Pedro Spina, o presidente do Sinduscon-TAP, explica que os empreendimentos para as classes B e A ainda enfrentam dificuldades e afirma que poucas iniciativas nesse nicho tiveram sucesso naquelas seis cidades em destaque na região. “O objetivo para o segundo semestre de 2017 é reaquecer os negócios voltados para o médio e alto padrão”, afirma. Leonardo Ribeiro, um dos sócios da Britamix Construções, criada em 2001, já está focando nesse segmento. A empresa atua apenas em Uberlândia, na faixa 3 do MCMV, e vem concentrando esforços em empreendimentos com características de condomínio-clube, como o Residencial Solar do Cerrado, no novo bairro Granja Marileusa. “É um local planejado, com características semelhantes a Jurerê Internacional, em Florianópolis”, diz Ribeiro. A construtora também está investindo em um empreendimento de alto padrão na zona sul da cidade.

De acordo com Pedro Spina, todos os empreendedores da região estão retomando a confiança nos investimentos, tanto em esferas públicas quanto no âmbito privado. Ele completa dizendo que, para esse cenário de otimismo se consolidar, é preciso que ocorra uma diminuição das taxas de juro e da inflação. “A população quer comprar, mas ainda está muito receosa.” Segundo o presidente do Sinduscon-TAP, há cerca de 2.500 unidades disponíveis em Uberlândia, mas existem planos de construção de mais 3 mil moradias até o fim deste ano.

Como aposta no reaquecimento do mercado para este ano, a Britamix Construções lançou em Uberlândia, no bairro Granja Marileusa, o Solar do Cerrado. Com conceito de condomínio-clube, o empreendimento foca no médio e alto padrão

Por Alexandra Gonsalez

Veja também: