Adaptação aos sistemas avançados de uso racional da água começa efetivamente a fazer parte do cotidiano de projetistas, construtoras e usuários

Assim como aconteceu com a energia elétrica num passado recente, aos poucos o Brasil aprende a evitar o desperdício de água, seja adotando sistemas de reúso, seja aderindo a novos hábitos e tecnologias que promovem o uso racional dos recursos hídricos. Grande parte do desperdício que existe hoje no país vem das próprias redes de abastecimento obsoletas, e não necessariamente das edificações. Mas, como a água limpa é cada vez mais escassa e cara, ninguém pode cruzar os braços sem correr o risco de ver o poço secar. “Já está em desenvolvimento na ABNT a norma que vai tratar do uso racional da água”, diz Renato Genioli Junior, coordenador do Grupo de Trabalho de Sistemas Prediais do Sinduscon-SP e conselheiro da Abrinstal (Associação Brasileira pela Conformidade e Eficiência das Instalações).

Além de Genioli Junior, convidamos representantes de quatro empresas do ramo para traçar o cenário atual da etapa das instalações hidráulicas em uma obra. A conversa abordou desde a lei sancionada pelo presidente Temer em julho de 2016, que obriga a instalação do hidrômetro individual em condomínios residenciais, até as novas tecnologias que evitam o desperdício e casos bem-sucedidos de prevenção de patologias, sem deixar de mencionar a necessidade de treinamento da mão de obra. “Esse é maior gargalo que há hoje no país nessa área”, enfatiza a engenheira Sibylle Muller, da AcquaBrasilis, que tem 15 anos de mercado.

O reúso de água já está disseminado no mercado brasileiro?
SIBYLLE MULLER Nós falamos disso há mais de 15 anos e, no início, o pessoal achava maravilhoso o que a gente propunha, mas ninguém fazia nada. De uns anos para cá, passamos a ter construtoras que ousaram colocar sistemas, mais de reaproveitamento de água de chuva do que de reúso. E a crise veio incentivar no sentido de trazer credibilidade junto ao cliente, porque aquilo que a gente falava está acontecendo. A água limpa é cada vez mais escassa e mais cara, principalmente no comércio. Então, incorporar sistemas de reaproveitamento é uma boa saída. Para a construtora significa um investimento a mais sem retorno direto, e muitas construtoras nem põem essa despesa na parte técnica, fica como despesa de marketing. E o sistema acaba sendo o diferencial do empreendimento. É um plus ambiental.
RENATO GENIOLI JUNIOR Já está em desenvolvimento na ABNT a norma que vai tratar do uso racional da água. Ela foi citada nessa nova norma da água quente e água fria e, nesse mesmo comitê, se criou um grupo de trabalho para falar desse uso. Quem está conduzindo o estudo é o engenheiro Carlos Barbara.

E o reúso nas construções que já estão prontas?
SIBYLLE Aí é mais complexo. Porque o reúso implica, por exemplo, dividir as tubulações. Tem que fazer uma tubulação de água potável e outra de água de reúso, tanto no abastecimento quanto na coleta. Tecnicamente é viável, mas ninguém quer quebrar um apartamento para passar uma nova prumagem. Às vezes o síndico quer fazer, mas aí vai para assembleia e ninguém aprova. Então é possível fazer? É. Mas na prática é difícil viabilizar.

A lei que prevê o uso de hidrômetro individual em condomínios residenciais (sancionada em julho de 2016) passar a valer em 2021. Vocês já sentem uma mudança?
GENIOLI JUNIOR A lei que obriga a construtora a deixar a infraestrutura para a futura instalação de hidrômetros individuais já existe faz tempo. Agora, o que essa lei do Temer traz? O uso racional da água. Essa é a grande questão. As companhias fornecedoras são as maiores desperdiçadoras porque todo o sistema está sucateado. Mas existe, sim, uma consciência maior, e todas essas leis ajudam. É impressionante como você consegue reduzir o consumo de água em qualquer empreendimento, seja comercial, seja de alto, médio ou baixo padrão, a partir do momento em que instala a medição individual.

Tem que doer no bolso.
GENIOLI JUNIOR: É o bolso que manda. E a gente tem feito muitos projetos com o uso racional de água e o reúso em estações de tratamento de esgoto. Mas o que acontece? Para exemplificar, fizemos um empreendimento em uma estação de tratamento de esgoto há sete anos. Fomos visitá-la depois de dois ou três anos e estava completamente largada, sem qualquer manutenção.
SIBYLLE: Esse é o grande problema. A manutenção para que esses sistemas continuem sendo eficientes requer alguma educação do povo, de como usar. Não é qualquer thinner que você vai jogar na pia, porque destrói o sistema – e as pessoas não têm essa cultura.

Em termos de produto, o que tem sido pesquisado ou feito em prol do uso racional da água?
FABIANA CASTRO Nós trouxemos uma tecnologia desenvolvida na Holanda, de captação de água de chuva por sistema sifonado, e temos desenvolvido alguns empreendimentos dessa forma de um ano para cá. Temos um galpão feito no Rio de Janeiro com 40 mil m2 e empreendimentos residenciais. A gente nota que, no passado, talvez não houvesse tanto esse interesse de hoje. Também estamos convertendo muitos projetos que antes seriam um sistema convencional, mas com essa nova tecnologia pode ser feito um ótimo aproveitamento da água de chuva.

O que é sistema sifonado?
RICARDO GIARDINI É o armazenamento. Ele facilita o reúso porque direciona o fluxo de água de chuva para um ponto específico que você determine. No sistema tradicional há muitas descidas e pouco controle disso, porque tem que ter os caimentos no chão. E o sifonado vale para qualquer empreendimento – o produto trabalha na vertical e na horizontal, sem escavação nem bombeamento forçado, porque cria a sifonagem a partir do volume de chuva.
FABIANA Se comparado ao sistema tradicional, o custo de implementação é similar, como custo total. Porque há muitos ganhos na obra.
GIARDINI Se for calcular produto contra produto, ele sai mais caro. Porém, se você somar a parte de escavação, prumadas, diâmetros de tubo que ele economiza e vários outros fatores, o gasto com esse sistema acaba sendo similar. Muitas vezes ele elimina o shaft, por exemplo. Há casos de prédios com 14 prumadas em que foi possível diminuir para duas.
LUIS FERNANDO BALDASSA Pegando um gancho de sustentabilidade, no ano passado fomos premiados no Qualinstal [da Abrinstal] com um sistema nosso chamado Tupyfix, em parceria com o Saae [Serviço Autônomo de Água e Esgoto] de Jacareí, em São Paulo. Hoje existem no estado lugares em que perde-se uns 60% da água captada e tratada até chegar às torneiras. No Saae-Jacareí, fizemos a padronização dos elementos, das conexões, e essa tecnologia Tupyfix é de engate rápido, então não precisa de ferramental especial nem vedante. A vedação é feita pelo anel de borracha, por compressão. O que notamos foi uma queda de 80% para 5% dos casos de vazamentos do órgão. Em oito meses de acompanhamento, deixamos de gastar 1.700 m3 de água, gerando uma economia em torno de R$ 211 mil para o órgão. Às vezes a pessoa fala “mas eu vou investir nesse produto bem mais caro que o outro por quê?”. Bem, se você fizer o acompanhamento e a conta, verá que economizou e não vai ter que fazer reparos e substituições excessivas, além de reduzir também a manutenção corretiva.

E o que tem sido desenvolvido para diminuir as patologias?
GIARDINI A gente procura sempre trazer produtos com alta tecnologia que facilitem a instalação, até para tentar eliminar um pouco essa parte do erro de instalação da mão de obra. Por exemplo, para água quente o Flextemp é um produto push fit: você encaixa e está pronto, não precisa de mais nada. Trouxemos ele recentemente, o que tirou grande parte da responsabilidade da mão de obra. Temos também ações voltadas para capacitar o instalador no Senai.

Como fornecedores do produto, vocês fazem acompanhamento na obra?
FABIANA Nós temos cerca de 25 engenheiros em todo o Brasil fazendo o trabalho de acompanhamento e assistência, in loco se necessário. Dependendo da situação, o treinamento da mão de obra também é na própria obra. GIARDINI Nós damos suporte pós-obra. Se der um problema, é ligar e dizer “olha, foi instalado um produto Amanco aqui e está vazando”. Daí uma pessoa vai até a obra para identificar se é problema de instalação ou do produto para dar a assistência que for preciso. FABIANA Também fazemos a especificação na própria obra, junto aos projetistas.

A tubulação da água quente com PVC já está consolidada no Brasil, mas no começo teve uma resistência por parte do mercado em trocar a tubulação de cobre. Hoje isso já está sedimentado ou ainda tem construtoras que optam pelo cobre?
GIARDINI Nas construtoras, acho que já está bem difundida. É um produto que emplacou. Como tudo, precisa de uma mudança de paradigma. Com o PVC não foi diferente nem com o CPVC. A gente atravessou períodos em que as pessoas precisavam entender melhor o produto. Instalar e ver que realmente ele funciona.
FABIANA Sobre a água quente, tem uma obra em que estamos trabalhando que poderia ter uma patologia se não estivesse nessa área de especificação. São 85 pavimentos, em Blumenau. Especificamos que só com um produto nosso novo, com tecnologia mais recente e altíssima resistência à temperatura e pressão, que é um super CPVC para água quente, seria possível viabilizar essa obra. Se tivesse sido usado um CPVC convencional ou um outro produto, não aguentariam.
GIARDINI Foi feita no CPVC uma melhoria na matéria-prima que compõe o produto. Com isso, ele começou a suportar mais pressão e mais temperatura.

Diante da concorrência com o PVC, o que mudou na tubulação de cobre para água?
FRANCISCO BARBOZA A gente teve uma divisão do pessoal, com a entrada dos materiais, e percebemos que precisamos orientar melhor os clientes sobre a qualidade característica adequada da água que é para ser utilizada. Com a escassez de recursos hídricos, aumentou a demanda por poço, mina, então é preciso mostrar para o cliente qual é o tratamento adequado para a água, para proteger todo o sistema. De cobre, aço ou ferro, o metal vai sofrer dependendo da característica do elemento. Por isso nosso primeiro trabalho foi apresentar as soluções que existiam de tratamento de água, controle de pH, pureza, para evitar os casos de corrosão. E também olhar para os outros elementos ou eventuais produtos que pudessem ser degenerativos para os materiais.

Como vocês veem a qualidade da mão de obra de instalações hidráulicas no Brasil?
SIBYLLE Eu vejo que esse é o grande gargalo que o Brasil tem. Acho que as empresas estão oferecendo boas tecnologias, mas muita gente não sabe usá-las e acontecem coisas incríveis na obra. Na minha área, em que é preciso separar as prumadas, o pessoal junta as prumadas e aí, de repente, sai água azul do chuveiro. Você vê coisas desse tipo.
GENIOLI JUNIOR A indústria poderia colaborar mais com isso. Existe um programa de qualificação da Abrinstal [Associação Brasileira pela Conformidade e Eficiência das Instalações], mas a indústria é muito pouco presente. E a participação, para ajudar na formação das equipes das empresas instaladoras, é fundamental. Tem aquela etapa da rua, tem os sistemas de água quente e fria, enfim, quem detém essa informação e essas tecnologias são vocês, empresas. Não é mais como antigamente, soldar caninho com cola de PVC. Evidentemente existem muitas empresas preparadas para fazer esse trabalho, mas a participação de vocês lá dentro é superimportante, para trazer inovações e divulgá-las para quem vai fazer a obra.
BARBOZA A Paranapanema tem participado desse programa da Qualinstal. Nós já tivemos a primeira reunião, com o engenheiro Alberto Fossa coordenando os trabalhos. Estamos atuando juntos para qualificar os instaladores na questão da instalação e da manutenção, e de como levar essa informação às construtoras, para que possam incluir isso em seus manuais. No Comitê do Cobre, estamos desenvolvendo um guia que hoje está mais avançado na questão do gás, mas nós queremos implementar um também para a água, e mostrar, com diretrizes, como é que se faz a melhor análise e tratamento da água para obter a melhor condição de durabilidade do seu sistema. Nós sabemos que, dependendo do material, ele pode ser mais prejudicial, o excesso de cloro, um pH muito baixo, não só para os tubos e as conexões, mas para os equipamentos, as bombas, as válvulas. Então a nossa preocupação também é essa, levar para o usuário final e o instalador toda essa cadeia ]de conhecimento que nós temos como indústria, como projetistas e construtores.

De que forma essa estagnação econômica afetou e o que vocês têm feito para quando vier a retomada?
SIBYLLE A gente trabalha muito com as certificadoras para desenvolver as soluções de reúso. Assim, do fim de 2015 para cá, a coisa praticamente zerou. Demos prosseguimento a alguma coisa que ainda estava em andamento, mas não se vê novos projetos ou empreendimentos iniciando com esse enfoque de certificação. O pessoal está esperando, porque a certificação custa. E quem se interessa? Geralmente as empresas grandes, multinacionais. E nós temos um estoque grande de imóveis disponíveis para isso.
FABIANA Principalmente edifícios comerciais são os que mais utilizam, porque conseguem agregar valor aos empreendimentos – e é onde a gente tem um estoque bastante alto.
GIARDINI A crise está impactando e não há novos projetos.
BALDASSA E outra: toda certificação é boa, só que lá na ponta tem que ter fiscalização.
SIBYLLE: E a manutenção disso. BALDASSA Por exemplo, a própria norma de desempenho agora vai ditar uma regra de uso consciente da água pelo usuário final. E fazer as manutenções periódicas para atingir a vida útil do sistema como um todo. Isso que é importante, a interação de todos. Da construtora, do fabricante, da fiscalização. Nós participamos da elaboração de normas com a ABNT, e onde está o problema? Vira norma, só que muita gente não encara a norma como mandatório. Daí a fiscalização é falha, e muita gente usa o que bem entende porque é mais barato.

Quais são os investimentos em inovação?
BARBOZA Nós estamos com alguns desafios para ser competitivos frente aos concorrentes. Por isso, em relação a novas tecnologias estamos buscando fomentar o uso dos tubos flexíveis na construção civil, que faz com que as instalações tenham maior praticidade.

Tubos flexíveis de cobre?
BARBOZA Sim, eles são unidos por um sistema de flangeamento e já são muito usados em sistemas de refrigeração a gás e combustíveis. O produto está disponível, e as normas já permitem o uso desse tubo nas instalações de água fria, água quente, gás e combustíveis. É uma aposta nossa, de que vamos conseguir trazer aquela mão de obra que deixou o cobre há algum tempo, que olha para esses produtos e vê algo similar.

A mão de obra para fazer uma instalação de cobre tem que ser mais qualificada do que a do PVC?
BARBOZA Quanto mais você facilita para a mão de obra no Brasil, mais ela vai dificultar para você. Às vezes você tenta com seu produto absorver a ineficiência da mão de obra, mas percebemos na obra que, mesmo dando facilidades, muitas vezes o funcionário acaba cometendo erros porque quer dar “o jeitinho”. Então, a gente tenta trazer novas tecnologias, porém, não pode deixar de treinar.

Vocês se aproximam dos projetistas para mostrar o que existe?
BARBOZA Discutimos tanto os problemas quanto as soluções. Por exemplo, com o problema da crise começamos a perfurar poço, e precisamos nos aproximar dos projetistas dos prédios para mostrar o que indicar no sistema para fazer um tratamento adequado e permitir uma instalação mais duradoura. Não basta perfurar, depois é preciso avaliar as características da água para o sistema como um todo. Então, a gente se aproxima dos instaladores, dos projetistas e dos engenheiros.
SIBYLLE: Hoje, em geral, as construtoras não têm equipes próprias. Elas subcontratam empresas de instalações hidráulicas, de projetos dos instaladores, e existe uma exigência crescente das construtoras, nessa parte de instalação, no sentido de segurança no trabalho. A construtora exige um monte de requisitos para se isentar de responsabilidade na questão trabalhista ou da segurança do trabalho. Mas exigência de qualidade de mão de obra não tenho visto.

Quando termina o estágio da obra de instalação hidráulica vem o metal e, se não tiver um aerador simples na torneira, ela vai consumir 20 vezes mais. Vocês conversam com a indústria de metais também?
BARBOZA No nosso caso o contato é muito próximo, pois muitas vezes também somos fornecedores de matéria-prima porque eles consomem o cobre também para fazer os metais.
FABIANA Normalmente atuamos em conjunto porque há as condições de normas.
GENIOLI JUNIOR Acho que este trio – as indústrias de instalações, as de acabamentos e os projetistas – precisa conversar e se conhecer. Como o Barboza disse, tem muito projetista que não sabe fazer uma especificação adequada para aquele fim, para aquele prédio que tem 85 andares, que é muito diferente de outro que tem dez andares. Esse projetista faz Control C + Control V. Por isso, essa conversa dos projetistas com as duas indústrias precisa ser muito bem alinhada.
FABIANA Da nossa parte são várias iniciativas. Temos encontros com os projetistas, ações com o Senai, onde fazemos treinamentos com os instaladores hidráulicos, realizamos conversas com fabricantes de metais sanitários. Estamos dentro da Abrasip [Associação Brasileira de Sistemas Prediais], trazemos os projetistas para mostrar a eles as inovações e debater sobre elas antes ainda de discutir sobre o desenvolvimento, ou seja, trabalhamos em conjunto. E o trabalho é incansável, porque fazemos tanto, mas sempre há muito por fazer.

Por Gustavo Curcio e Lidice-Bá

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