Descartes dos canteiros representam mais de 50% do material sólido urbano no Brasil. Saiba como fazer a gestão e tratamento de resíduos de construção

Não importa o tamanho da construção. Qualquer leigo que já reformou o banheiro de casa costuma associar obra com produção de resíduos de cimento, tinta e cerâmica. Também fazem parte dessa equação a sujeira e a contratação de caçambas para levar o entulho para um destino muitas vezes incerto. Por isso, trabalhar a questão da gestão e tratamento de resíduos de construção em larga escala, no nicho das construtoras e incorporadoras, é um trabalho hercúleo. Os descartes da construção civil representam um grave problema na maioria das cidades brasileiras. A disposição irregular desse material, algumas vezes tóxico, gera passivos de ordem ambiental e de saúde. Além disso, sobrecarrega os sistemas de limpeza pública municipais.

‘ Recentemente, participamos de uma feira nos Estados Unidos e visitamos uma usina na Califórnia. O nível de desenvolvimento deles é absurdamente superior, em todos os sentidos. ‘

Hewerton Bartoli, presidente da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição

No Brasil, os resíduos da construção Civil (RCC) podem representar de 50% a 70% da massa dos resíduos sólidos urbanos (RSU), de acordo com dados do estudo Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2015, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). O levantamento da entidade aponta que cerca de 80 milhões de toneladas de lixo são produzidos no país por ano. Desse montante, 42% ainda têm como destino final lixões e aterros sanitários, considerados ambientalmente inadequados para o descarte. De acordo com o estudo da associação – e considerando as metas previstas em 2010 na Lei no 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) -, o país precisa investir R$ 11,6 bilhões em infraestrutura, até 2031, para implantar ações de destinação final adequada aos resíduos sólidos. A esse valor somam-se R$ 15,59 bilhões ao ano para custear a operação e a manutenção dos locais a serem construídos.

O arquiteto Tarcísio de Paula, da I&T Gestão de Resíduos, diz que o Brasil vive uma situação ímpar na América Latina, apresentando políticas e normas estabelecidas, além de um plantel de instalações que outros países não têm. No entanto, pontua ele, se o cenário brasileiro é mais avançado do que o de nossos vizinhos, ainda é distante do praticado em vários países europeus. ‘Dados da Eurostat, órgão de estatísticas da União Europeia, apontam que as taxas de recuperação dos resíduos gerados em atividades construtivas se situam próximas dos 90% ou até mesmo ultrapassam esse número’, diz De Paula.

Segundo o presidente da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon), Hewerton Bartoli, o Brasil ainda está em uma fase muito incipiente no que tange a resíduos de construção, haja visto que as principais leis que regem o setor são recentes. A Resolução Conama 307, que estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil, é de 2002, e a Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010. “Se olharmos o tempo que existe a atividade construtiva, isso representa muito pouco”, afirma. Bartoli comenta que em relação aos Estados Unidos, por exemplo, estamos décadas atrasados. “Recentemente, participamos de uma feira nos Estados Unidos e visitamos uma usina na Califórnia. O nível de desenvolvimento deles nessa área é absurdamente superior, em todos os sentidos.”

Hoje, a Abrecon tem 32 associados em apenas sete estados brasileiros: Bahia, Ceará, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, mais o Distrito Federal. O presidente da entidade afirma que o pólo de maior concentração de usinas está no Sudeste, com destaque para o estado de São Paulo. “São regiões em que a construção civil é mais forte e há maior desenvolvimento econômico. Contudo, observa-se um crescimento considerável no Nordeste”, diz Bartoli.

Conscientização
O envolvimento das construtoras e incorporadoras com a gestão de tratamentos de resíduos de construção e a logística reversa é crescente. No entanto, o tema ainda precisa ser melhor difundido e apoiado para que a reciclagem se torne efetivamente uma realidade no segmento. Dentre os pontos negativos destacam-se a morosidade na eliminação de lixões, alta carga tributária nas operações de gestão de resíduos, falta de incentivo ao uso do agregado reciclado e principalmente escassez de recursos e baixa capacidade do poder público em criar políticas públicas para fortalecer o setor e incentivar o descarte correto.

O professor doutor José da Costa Marques Neto, diretor-geral do Escritório de Desenvolvimento Físico (EDF) do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos, que estuda o tema há anos, destaca outro ponto fraco do Brasil: a fragmentação entre os serviços de coleta, transporte e tratamento dos resíduos. “Na Europa, uma só empresa faz todo o ciclo, do canteiro ao destino final. Isso seria uma ótima solução aqui”, afirma. Marques Neto ressalta que o Brasil tem um setor pujante na construção civil, área responsável por uma faixa representativa do PIB brasileiro, porém ainda enfrenta dificuldades em dar um salto de qualidade. “Poucas empresas investem e a tecnologia fica restrita àquelas com maior poder aquisitivo”, explica. Para o acadêmico, o tripé qualidade-custo-prazo é de difícil aplicação no setor construtivo brasileiro, impactando diretamente a gestão e o tratamento de resíduos.

Apesar dos obstáculos, as mudanças já se fazem notar. O presidente da Abrecon, Hewerton Bartoli, destaca a criação e o fortalecimento das legislações em âmbito nacional, estadual e municipal, assim como o crescimento do mercado de usinas de reciclagem, além do aumento de empreendimentos que adotam selos verdes. “Por ser um mercado novo, entendemos que estamos em fase de maturação”, afirma Bartoli. Para ele, aos poucos os atores da cadeia têm tomado consciência sobre a importância da reciclagem. “Ainda há brechas no sistema e, infelizmente, convivemos com o descarte irregular. Porém, a reciclagem está cada vez mais presente e vem conquistado um espaço importante.”

Entidades como os sindicatos da indústria da construção civil em todo o Brasil têm se mobilizado para fomentar o assunto e buscar soluções. Um dos estados mais avançados é o Paraná, atuante no assunto desde os anos 1970. “Há mais de 40 anos vivenciamos a primeira fase importante para o setor, quando as principais ações eram voltadas à diminuição dos custos dos empreendimentos”, afirma Ivanor Fantin Júnior, engenheiro e assessor técnico do Sinduscon-PR. Ele comenta que na época era imprescindível que qualquer desperdício fosse combatido para que o segmento avançasse. “Nas décadas de 80 e 90 houve o discurso da sustentabilidade como a expressão dominante no debate que envolve questões de meio ambiente e de desenvolvimento social”, diz. Segundo Fantin, naquele momento as maiores empresas já possuíam parâmetros de economia de insumos nas obras e ficava evidente a importância da gestão dos resíduos. “No início dos anos 90 as legislações municipais foram implementadas e o setor adaptou-se facilmente às exigências.”

Em 2012, o Sinduscon-PR assinou o edital de chamamento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente para apresentar um Plano de Logística Reversa, entregue em 2014. O Sinduscon-PR e demais sindicatos da construção civil do estado formalizaram um grupo gestor que trabalha não somente com a logística reversa, como também com a disseminação da gestão de resíduos para seus associados. “Com essa ação em andamento e o histórico proativo do setor, atualmente mais de 70% das empresas associadas estão engajadas”, afirma.

Normas e regulamentações para a gestão de resíduos

FONTES: MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS

LEIS FEDERAIS
N.º 6.938/1981
Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente.

N.º 9.605/1998
Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.

N.º 12.305/2010
Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

RESOLUÇÕES DO CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE – CONAMA
N.º 237/1997
Regulamenta os aspectos de licenciamento ambiental estabelecidos na Política Nacional de Meio Ambiente.

N° 264/1999
Trata de coprocessamento de resíduos em fornos de clínquer para fabricação de cimento.

N.º 275/2001
Estabelece código de cores para diferentes tipos de resíduos na coleta seletiva.

N.º 307/2002
Estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos RCC.

N.º 348/2004
Altera a Resolução Conama no 307/2002, classifica o amianto como resíduo perigoso – classe D.

N.º 431/2011
Altera a Resolução Conama no 307/2002, classifica o gesso como resíduo classe B – reciclável.

N.º 448/2012
Altera a Resolução Conama no 307/2002.

N.º 469/2015
Altera o art. 3o da Resolução Conama no 307, de 5 de julho de 2002, que estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil.

NORMAS TÉCNICAS DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT)
NBR 10.004
Classificação de resíduos sólidos.

NBR 10.157
Aterros de resíduos perigosos. Critérios para projeto, construção e operação.

NBR 11.174
Armazenamento de resíduos.

NBR 12.235
Armazenamento de resíduos sólidos perigosos.

NBR 15.112
Resíduos da construção civil e resíduos volumosos. Áreas de transbordo e triagem. Diretrizes para projeto, implantação e operação.

NBR 15.114
Resíduos sólidos da construção civil. Áreas de reciclagem: diretrizes para projeto, implantação e operação.

NBR 15.115
Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil. Execução de camadas de pavimentação: procedimentos.

NBR 15.116
Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil. Utilização em pavimentação e preparo de concreto sem função estrutural: requisitos.

Especialistas falam sobre as Áreas de Transbordo e Triagem (ATT)

“O processo de licenciamento é relativamente simplificado e não tem um controle rigoroso por parte do poder público. Cresceu de maneira indiscriminada e não tem contribuído significativamente para atender ao seu real propósito, que é o transbordo e a triagem. Muitas vezes é utilizado como um meio para burlar o sistema. É um destinatário fundamental da cadeia que precisa de uma maior atenção para ajudar a atenuar os impactos ambientais da construção civil.”
Hewerton Bartoli, presidente da Abrecon

“A princípio essa solução é positiva, porém, tenho algumas ressalvas. Partimos do princípio de que todo resíduo de construção é inerte. Porém, pesquisas recentes questionam esse fato, apontando que nesse montante inerte há também uma parcela de detritos contaminantes. Por isso, é preciso desenvolver um olhar profundo para projetar novas ATTs que abarquem esse tipo de questionamento.”
Prof. Dr. José da Costa Marques Neto, diretor-geral do Escritório de Desenvolvimento Físico (EDF) do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos

“É uma boa solução, principalmente quando há alguma falha no processo de segregação do resíduo, ou em caso de acúmulo de grandes volumes, para viabilizar a reciclagem e o transporte desse material para as grandes cidades. É uma boa solução porque tira caminhões dos centros urbanos, e permite que resíduos de classe A (resíduo de concreto, argamassa, blocos e tijolos, demolição) sejam utilizados na própria cidade para pavimentação de ruas ou mesmo acerto de solos e até na fabricação de novos produtos, ajudando a reduzir o consumo de insumos naturais do tipo areia e brita.”
José Luiz da Fonseca, gestor executivo de SSMA da construtora MRV

“Como em boa parte das cidades brasileiras de médio e grande porte, em Goiânia não existe nenhuma ATT. Ou os resíduos de construção são encaminhados para empresas recicladoras, ou esse passivo ambiental vai parar em áreas abandonadas e rios. Antigas pedreiras no entorno da cidade também têm recebido esse material para aterrar. Há pelo menos oito anos existe a promessa da implantação de uma ATT, mas por hora nada foi feito. A própria prefeitura não tem nenhuma política pública para descarte de resíduos de construção, então acredito que ainda iremos trilhar um longo e tortuoso caminho até que esse assunto seja solucionado em grande escala.”
Cinthia Martins, gestora ambiental do grupo Toctao

“Temos somente uma ATT licenciada na região metropolitana de Curitiba. Diversos locais próximos à capital fazem a disposição irregular e irresponsável de despojos da construção, muitas vezes recebendo até resíduos químicos. Temos diversas cooperativas de catadores formais e informais que captam resíduos da construção civil, como latas de tintas e sacos de cimento. Porém, pela falta de licenciamento ambiental desses produtos, o construtor acaba não recebendo o certificado de destino correto exigido na finalização do PGRCC.”
Ivanor Fantin Júnior, assessor técnico do Sinduscon-PR

Exemplos de sucesso
É notório que o mercado ainda enfrentará um longo caminho em relação à criação de legislações específicas, desenvolvimento de infraestrutura e principalmente educação ambiental para todos os envolvidos na cadeia construtiva, incluindo transportadores, fornecedores, prestadores de serviços e destinatários. Educação de base para todos os funcionários foi a estratégia de sucesso do grupo Toctao, de Goiás, que atua em diferentes setores da engenharia, como prestação de serviços de construção, energia, concessão de saneamento, urbanismo e incorporação imobiliária. Cinthia Martins, gestora ambiental do grupo, conta que a empresa começou a trabalhar com a implantação dos sistemas de gestão de qualidade ligados às normas do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), no início dos anos 2000.

Segundo Cinthia, no começo foi difícil implantar essa cultura entre os funcionários. “Aos poucos, o hábito da gestão de resíduos foi incorporado ao cotidiano, juntamente com os temas segurança e qualidade.” Ela conta que além dos investimentos em equipe interna, consultores externos e treinamento de pessoal, foi preciso montar infraestrutura nos canteiros para receber o material a ser reciclado, como baias de armazenamento e equipamentos como britador compacto. “Foi um processo longo, que levou cinco anos para ter sucesso. Finalmente, em 2016, conseguimos vencer esse obstáculo”, diz. Segundo Cinthia, hoje todos os colaboradores, do operário ao engenheiro, sabem como funciona e para que serve a política de gestão de resíduos.

Para a gestora ambiental da Toctao, o maior gargalo da construtora é encontrar em Goiás parceiros de reciclagem que trabalhem inteiramente dentro dos conformes. Ela conta que a companhia mantém um procedimento interno que checa todas as empresas que recebem os resíduos das obras. “Precisamos saber se elas têm as licenças ambientais exigidas, as autorizações necessárias e todos os processos de atuação dentro da legalidade”, explica.

A construtora mineira MRV é outro exemplo de adesão positiva à gestão de resíduos. A empresa constrói empreendimentos para o programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal, e começou a gerenciar os despojos de obras em 2010, com um projeto-piloto em Belo Horizonte. Atualmente, todas as obras da companhia fazem gestão de resíduos e têm implantado o Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil (PGRCC). “Atingimos aproximadamente 93% de eficiência de segregação dos detritos”, afirma José Luiz da Fonseca, gestor executivo de Segurança, Saúde e Meio Ambiente (SSMA) da MRV.

Fonseca conta que ninguém acreditava no sucesso da iniciativa durante a introdução do projeto-piloto, há sete anos. “Éramos tachados de ””a turma do lixo””. Cheguei a ouvir que aquilo era besteira, que não traria lucro.” Agora, o gestor afirma que os custos das iniciativas são pagos pelo ganho na gestão de resíduos. “Investimos a partir do zero em uma obra de difícil logística. Treinamos equipes administrativa e de canteiro, criamos várias tabelas e relatórios.” Essa metodologia (veja case na próxima página) gerou um estudo intenso dos resíduos que seriam produzidos e, ao mesmo tempo, proporcionou um planejamento detalhado de como tratar o que já tinha sido gerado e não segregado. “O final da experiência-piloto trouxe benefícios em diversas esferas e ainda serve de base para várias pesquisas internas de sustentabilidade.

Projeto-piloto da MRV em Belo Horizonte: 100% das obras têm implantado o Plano de Gerenciamento de Resíduos nos canteiros

 

Condomínio residencial Spazio Treviso, em Belo Horizonte (MG), MRV

FONTE: MRV, GESTÃO DE RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL – 3a ETAPA – ACOMPANHAMENTO RELATÓRIO ANUAL (1/1/2016 – 31/12/2016)

Características
Localizado no bairro Castelo, as obras do condomínio começaram em 2014. Conta com seis torres residenciais, 13 pavimentos e 624 apartamentos de dois e três dormitórios, numa área total de 38 mil m2. A entrega está prevista para o fim de julho de 2017.

Gestão de resíduos
Começou com a retirada de terra para a terraplanagem, uma vez que o terreno era virgem. Foram 320 toneladas de terra destinadas a outra obra na região, com custo zero no descarte.

Todos os blocos de concreto estrutural foram trabalhados com segregação de resíduos cinza, com logística reversa com o próprio fornecedor de blocos. Em média, a cada cinco caçambas de resíduos, a empresa de blocos devolvia de dois a três páletes de produto final. Nesse trabalho de logística reversa, o equivalente a 530 m3 de páletes foram reutilizados.

A obra teve 98,3% de segregação de resíduos. O que não foi reciclado passou por processo de logística reversa ou foi encaminhado para uma ATT.

Diferencial
Foi o primeiro canteiro de Belo Horizonte com a nova legislação ambiental municipal. A prefeitura acompanhou de perto todos os processos.

Economia gerada
Os custos foram alocados no valor da obra. O objetivo de gerar menos resíduos depende do processo construtivo. Em uma obra com paredes de concreto, essa economia pode girar em torno de 50%. Neste case, a economia ficou em 32% do orçamento com gestão dos resíduos. O gerenciamento dos resíduos aplicado pela obra do Spazio Treviso ao longo de 2016 proporcionou à MRV uma economia de R$ 43.188. Este valor foi obtido, além da negociação comercial por melhores preços, devido à doação dos materiais passíveis de reciclagem, uma vez que a obra não tem custo para com o transporte e destinação final desse tipo de resíduo (madeira, papel, plástico e metal).

FONTE: MRV ENGENHARIA E PARTICIPAÇÕES S.A (2016)
FONTE: MRV ENGENHARIA E PARTICIPAÇÕES S.A (2016)

 

Tipo de transporte versus volume de resíduo (m³)
Ano: 2016

 

 

 

 

 

 

 

 

Tipologia versus quantitativo de resíduos (m³)
Ano: 2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aparecida Shopping, em Aparecida de Goiânia (GO), da Toctao

 


Gestão de resíduos 
Características
O shopping fica a 18 km da capital de Goiás. O empreendimento começou a ser construído em novembro de 2014, com conclusão das obras em março de 2017. Tem cinco pavimentos, capacidade para 162 lojas e 1.808 vagas no estacionamento. O total de área construída é de 52 mil m², em um terreno de 45 mil m².

Materiais classificados como resíduos classe A (blocos, cimento, restos de concreto) foram segregados. Parte foi reciclada dentro da própria obra, por meio de um britador compacto, e outra parte foi destinada para uma empresa de reciclagem de resíduos classe A.

As sacarias de cimento, cal e argamassa, bem como os páletes e o gesso, foram trabalhados por meio da logística reversa. Para tanto, os colaboradores já segregaram nas frentes de serviço para ser destinados pelos fornecedores.As latas de tinta foram segregadas. Os colaboradores foram orientados a utilizar todo o conteúdo das latas e raspar restos para não ficar excesso do produto no fundo. As latas foram destinadas para reciclagem de resíduos classe B e os restos de tinta como resíduos classe D.

O restante dos resíduos classe B, como compostos de papel e plástico, foi acondicionado em big bags e destinado para empresas de reciclagem.

Os resíduos perigosos, como restos de tinta, materiais sujos de graxa e embalagens de produtos químicos, foram classificados como resíduos classe D, armazenados em uma baia específica no canteiro de obras e destinados para coprocessamento.

A maneira correta de acondicionamento inicial dos resíduos e transporte interno possibilitou obter uma melhor qualidade do material reciclável, com valor maior para venda. Os resíduos classe A, destinados para a usina de reciclagem, retornaram para o canteiro para ser utilizados na pavimentação das vias de serviço do canteiro de obras.


Como elaborar um plano de gestão de resíduos
Economia gerada
Não foi realizado investimento direto da empresa em logística reversa. O transporte dos resíduos foi feito pelos fornecedores. A empresa apenas realizou a segregação correta e preparou as cargas para expedição. No total, a Toctao destinou 2% dos resíduos por meio da logística reversa. Nesta obra foram investidos cerca de R$ 125 mil na gestão de todos os resíduos.

Ivanor Fantin Júnior, assessor técnico do Sinduscon-PR, comenta que a entidade recebeu algumas demandas de seus associados quanto a um plano de gestão de resíduos. Essa procura gerou, em 2015, um manual de gerenciamento de RCC, em parceria com a prefeitura municipal de Curitiba, para nortear os profissionais na gestão dos resíduos e no correto preenchimento do PGRCC simplificado. Segundo Fantin, ocorreram poucas mudanças quanto ao plano de gestão de resíduos elaborado em 2004. “A maior alteração feita na legislação foi a inclusão das latas de tintas com o filme seco como resíduo da classe B, portanto material para reciclagem e não mais resíduo contaminado”, explica. O assessor técnico afirma que esse manual ajudou a esclarecer os empresários do setor e inspirou empreendedores no país.

MRV: gestão de resíduos desde a fase de projeto

Na goiana Toctao o divisor de águas com o planejamento veio em 2004, quando a companhia participou de um estudo para a tese de doutorado da arquiteta Raquel Blumenschein, da Universidade de Brasília (UnB), sobre a sustentabilidade na cadeia produtiva da indústria da construção. “A partir daí a empresa começou a atuar de fato”, afirma Cinthia Martins. O primeiro passo foi a coleta seletiva no canteiro, baseada na Resolução Conama 307. Em 2010, um departamento de gestão socioambiental foi implantado e as ações estendidas para todas as operações e obras da construtora. “Tudo começou com a conscientização. Hoje, 100% dos canteiros seguem as diretrizes determinadas em todas as esferas legais, além de iniciativas desenvolvidas e aplicadas internamente”, conta a gestora ambiental. “Também atuamos com logística reversa com gesso e drywall.” Todo o resto, conta Cinthia, é encaminhado para reciclagem em seus diversos nichos e a venda desses resíduos gera uma renda que acaba voltando para ser reinvestida em outras ações sustentáveis.Para o presidente da Abrecon, elaborar um bom plano de gestão de resíduos deve ser a prioridade das empresas. “Ele é o alicerce e deve preceder todo e qualquer empreendimento”, recomenda. Segundo Bartoli, cada construtora deve levantar uma estimativa de resíduos pelo método construtivo, área a ser construída e histórico da companhia em empreendimentos parecidos. “Além disso, os destinatários mais próximos para cada tipo de resíduo precisam ser mapeados de maneira a assegurar o destino correto dos despojos.” O especialista afirma que é fundamental determinar critérios de segregação e acondicionamento dos resíduos e, para essa fase, recomenda empresas de consultoria que possam auxiliar no processo. “O preço desse plano inicial possam variar de R$ 4 mil a R$ 15 mil, dependendo da complexidade do projeto”, diz.

Na MRV, esse processo começa pela avaliação do projeto e de como é possível reduzir a geração de resíduos específicos. “A etapa seguinte engloba especificação do tipo de construção, porte da obra e análise das legislações federal, estadual e municipal”, afirma o gestor executivo de SSMA, José Luiz da Fonseca. Cumpridas essas fases, a empresa faz um diagnóstico do tipo de resíduo que será gerado e qual o volume e percentual que representará na geração de despojos. Há, ainda, um estudo dos locais de armazenamentos provisórios em baias ou bags, a alocação no canteiro de obras, como será a logística de retirada desse resíduo, através de que equipamento ou caminhão, além de impactos no canteiro.

Fonseca diz que todos esses procedimentos não se desenvolveram do dia para a noite e receberam um aporte financeiro significativo. “No início, investimos muito em consultoria. Hoje, esse processo é quase todo feito internamente, com as equipes de meio ambiente e de produção”, afirma. O time de Fonseca conta com quinhentos profissionais que atendem às demandas das obras no país inteiro. Ações do cotidiano no canteiro também entram nesse escopo. A MRV implementou e aumentou em quatro vezes a produção de unidades pelo método construtivo “parede de concreto”, tornando possível reduzir resíduos em relação ao processo convencional. “Fazemos a separação de materiais nas obras, diminuindo o volume do que é efetivamente jogado fora, possibilitando a destinação adequada dos outros materiais”, diz José Luiz da Fonseca.

Para sistematizar esse processo, o executivo afirma que em cada obra há um operário responsável pela destinação correta do que é gerado – para reciclagem, logística reversa, doação, venda para cooperativas ou reutilização nas próprias obras. Este último item tem tido grande destaque e contribuído para o reaproveitamento de materiais que antes iriam para o aterro sanitário. “Isso acontece com blocos de concreto quebrados, que são triturados e voltam a ser utilizados.” A mesma tática de manter um funcionário em cada obra para gerenciar os resíduos também é adotada pela Toctao. “Temos engenheiros que só pensam nisso”, diz Cinthia Martins.

Fornecedores precisam se comprometer mais
Os representantes das construtoras dizem que o grande obstáculo nesse processo tem sido convencer os fornecedores a se envolver com a logística reversa. “Mesmo se o fabricante cumprir sua parte, outra barreira é encontrar locais para se fazer a logística reversa e receptores de materiais recicláveis dentro da legislação”, diz o gestor executivo da MRV. O representante do Sinduscon-PR reconhece que esse é um gargalo e tanto, especialmente em cidades menores e em obras de pequeno porte. “Os serviços são realizados no local, gerando pouca quantidade de resíduos de diferentes características”, afirma Ivanor Fantin Júnior. No entanto, ele comenta que a destinação desse entulho é incerta e praticamente não há separação. “Embalagens de cimento, gesso, madeira e equipamentos de proteção recebem o mesmo tratamento no descarte”, lamenta. Para Fantin, a solução mais adequada e viável, principalmente para o micro e pequeno empresário, seria a disponibilização pelo poder público de pontos de entrega voluntários, com baias de separação, onde o próprio construtor pudesse levar seus resíduos e separá-los no local.

Hewerton Bartoli, da Abrecon, cita como um exemplo a ser seguido a Ilha Pura, no Rio de Janeiro, local onde foi construída a Vila dos Atletas para os Jogos Olímpicos de 2016. Para ele, esse é um caso emblemático de reciclagem de resíduos dentro do próprio empreendimento. “Conseguiram diminuir a circulação de caminhões no entorno do canteiro, pouparam a vida útil de aterros e reduziram os custos com aquisição de agregado virgem.” Cinthia Martins, da Toctao, afirma que há sete anos havia muita resistência por parte dos fornecedores, que se recusavam a implantar ações de logística reversa. “Agora, a maioria está mais consciente, afinal é algo que já está estipulado em contrato”, comenta. A gestora ambiental diz que a expertise adquirida nas obras da construtora é expandida até entre os concorrentes. “Quando os fornecedores observam os benefícios das práticas e verificam que influenciamos positivamente o mercado, já chegam com essa postura nos demais clientes.”Ter parceiros engajados também ajuda bastante a cumprir os objetivos das construtoras. Um dos parceiros da MRV, que integra fornecedores de tintas e a construtora, praticando a logística reversa, é a ONG Prolata Reciclagem. A entidade é uma associação sem fins lucrativos formada pela cadeia de valor dos fabricantes de latas de aço no Brasil. A empresa mineira também mantém parcerias com fábricas de blocos de concreto. “Elas recebem nossos resíduos cinza segregados e os reutilizam na fabricação de novos produtos de pré-moldados”, conta José Luiz da Fonseca. Tarcísio de Paula, da I&T Gestão de Resíduos, diz que em algumas regiões do país há avanços com propostas de aplicar o conceito a outros materiais, como os blocos estruturais, através da BlocoBrasil (Associação Brasileira da Indústria de Blocos de Concreto). “Há exemplos de aplicações da logística reversa no fornecimento de painéis de gesso acartonado e impermeabilizantes.” De Paula acredita que as soluções passam pelo compromisso técnico e ambiental dos geradores desses materiais, pelo incentivo e implementação de uma rede de áreas de destinação, como as ATT e ATTR, com reciclagem, e pelo cumprimento das diretrizes legais.

Essas iniciativas acabam gerando tecnologias de reciclagem para uso no canteiro. As construtoras que aplicam a gestão de resíduos costumam utilizar a reciclagem de despojos cinza para produzir agregados de concreto ou argamassas na produção de pré-moldados como chapéu de muro, guias de jardins, passeios, briquetes de calçadas, sub-base de pavimentação, entre outros insumos. Alguns páletes viram bicicletários para os trabalhadores das obras e demais itens de embalagens podem se transformar em recipientes para resíduos diversos. Na prática, essas ações se revertem em números positivos para as construtoras. Em 2016, as ações sustentáveis da MRV geraram uma economia de R$ 1,043 milhão, reduzindo o número de caçambas em 32%.

Agora, o que todos esperam são mais ações por parte dos poderes públicos. “Ainda não há fiscalização nem infraestrutura suficientes na maioria das cidades”, lamenta o presidente da Abrecon. Hewerton Bartoli acredita que através da educação ambiental e da criação de infraestrutura para o cumprimento das leis, o Brasil possa dar um salto nessa questão. Para Cinthia Martins, da Toctao, as construtoras também precisam assumir sua parcela de responsabilidade. “Gestão de resíduos e logística reversa são temas que precisam ser vistos como parte do core do negócio da construção civil”, afirma. Segundo a gestora ambiental, é preciso que os empresários façam isso naturalmente, não por imposições legais ou medo de multas, mas por conscientização. Segundo Tarcísio de Paula, as ações de gestão de resíduos não podem ser vistas como procedimentos ocasionais, implementados apenas nas obras mais significativas e sob processo de certificação. “É preciso incorporá-las ao dia a dia dos operadores da obra, do quadro ou terceirizados”, afirma. O especialista garante que o investimento compensa. “Os custos do gerenciamento dos resíduos em obra já foram verificados como inferiores aos ocorrentes em obras desorganizadas, com sua elevada perda de materiais”, completa.

Por Alexandra Gonsalez

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