Evolução do piso intertravado surgiu no Brasil há uma década, mas ainda é mal explorado. Para isso, é preciso que arquitetos e paisagistas elaborem projetos de estrutura do piso com especificações detalhadas e, sobretudo, que as empresas fabricantes aprimorem as técnicas de instalação

Cada ponto de alagamento na cidade de São Paulo significa uma perda de cerca de 1 milhão de reais para o PIB brasileiro. No total, são desperdiçados mais de 700 milhões de reais por ano no país com essa questão. Colaborar na prevenção de enchentes é um dos benefícios do piso intertravado permeável, uma evolução do pavimento intertravado comum, já consolidado no mercado. Também chamado de piso drenante, ele surgiu no país há uma década e seu uso vem crescendo até mesmo por causa da exigência da taxa de área permeável de solo – o percentual mínimo da área do lote onde é proibida a impermeabilização por pavimentação ou edificação (em São Paulo ela é de 15% do total do terreno).

‘Nossas obras começaram a demandar o pavimento permeável nos últimos anos e hoje ele representa quase 30% da nossa produção de piso intertravado’, diz o engenheiro Marcos Barral, da Oterprem. ‘Agora estamos implantando seminários de capacitação para as prefeituras e entidades diversas, para explicar o que é pavimento permeável’, pontua o arquiteto Carlos Alberto Tauil, consultor da BlocoBrasil (Associação Brasileira da Indústria de Blocos de Concreto). Além deles, convidamos representantes da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) e de quatro empresas para debater sobre o cenário atual desse mercado. A seguir, os principais trechos da conversa.

Mesa-redonda

 

 

 

Quais as diferenças básicas entre o piso permeável e o intertravado?
CLÁUDIO OLIVEIRA É a abertura da fundação. Toda fundação do pavimento permeável tem que ser aberta dentro do contexto de que é preciso deixar a água passar. Então a gente não usa nenhum material fino desde a estrutura, diferentemente do pavimento convencional, que é todo fechado. Da mesma maneira, tenho uma estrutura compactada para suportar carga, mas eu permito a passagem da água. E essa concepção nasce da escolha do material usado na fundação. A gente não pode ter brita como material fino, por exemplo.

Quais as principais causas da má instalação dos pisos intertravados?
ANA PAULA MENEGAZZO O conhecimento dos projetistas, o preparo dos instaladores e a importância do pré-projeto são os pontos fundamentais para a qualidade do desempenho que você vai ter.
MARCOS BARRAL Eu acho que a origem do problema é o projeto não vir detalhado. Não nas grandes obras, que são referências, mas nas médias e pequenas, do dia a dia. O projeto tem que ter uma definição para a parte hidráulica e a estrutural, mas na prática não vem nada. E na hora de executar a decisão fica a cargo do engenheiro da obra definir o que vai ser feito, já que o escritório de arquitetura não especifica o pavimento permeável e a solução para o solo.
OLIVEIRA A gente começou a falar em pavimento permeável no Brasil mais ou menos em 2009. E desde então eu acho que começou errada a questão da especificação. O pessoal acha que é só colocar o revestimento permeável, e o resto tudo bem. Teve gente que assentou revestimento permeável em argamassa, por exemplo.

Mas assim você perde todo o princípio básico do elemento, não?
CLÁUDIO OLIVEIRA É a abertura da fundação. Toda fundação do pavimento permeável tem que ser aberta dentro do contexto de que é preciso deixar a água passar. Então a gente não usa nenhum material fino desde a estrutura, diferentemente do pavimento convencional, que é todo fechado. Da mesma maneira, tenho uma estrutura compactada para suportar carga, mas eu permito a passagem da água. E essa concepção nasce da escolha do material usado na fundação. A gente não pode ter brita como material fino, por exemplo.

OLIVEIRA Sim, ele pode estar funcionando ali como uma drenagem superficial, mas não é um pavimento permeável. Essas coisas continuam acontecendo no mercado e quando a gente começou a trabalhar com essa norma nossa preocupação era justamente minimizar essa questão. A norma [ABNT NBR 16416:2015] é voltada para especificação do pavimento.

Quem é o responsável pelo estudo de solo?
CARLOS ALBERTO TAUIL Na hora de construir você tem que ter um projeto de estrutura do piso que dá os detalhes de como deve ser a obra. O projeto orienta se tem que ter uma camada de 20 cm, 25 cm ou 30 cm de pedra granulada e como vai ser feito. Em resumo, primeiro é preciso saber o que se quer do pavimento permeável: é simplesmente um retardamento da água que cai no pátio? Ou é retardar e, daqui a um tempo, conduzir essa água para as redes de águas pluviais? O pessoal reclama dizendo “bom, mas eu tenho que fazer tudo isso?”. Tem sim. Mas em compensação você não tem que fazera rede de água pluvial com boca de lobo, por exemplo, porque o próprio piso traz compensações.

Vocês, fabricantes, acompanham a instalação para garantir a eficiência?
GEORGES RUSALIM FILHO Algumas obras a gente acompanha. Tem um caso acontecendo em Campinas, no interior de São Paulo, num grande condomínio que foi construído nos anos 70 quando não se pensou em nada. São áreas de 5 mil m2 cada lote. A região é de muito aclive e declive e todos os grandes telhados das mansões passaram a jogar a água no gramado. Aquela teoria que a grama absorve tudo é furada, porque a água vai saturando o solo e descendo para o terreno vizinho. E ali houve um acidente de um terreno reter quase que um lago. Na hora em que estourou o muro, inundou umas quatro residências, e como o problema continua vai ser preciso fazer um trabalho em conjunto com a ABCP. Cada lote vai precisar de um projeto de absorção do solo e de uma caixa de retardo na parte mais baixa do condomínio, porque ninguém mais consegue entrar nas casas mais lavadas durante uma chuva.

O que é essa caixa de retardo?
RENATO DAMINELLO É para onde a água, em alguns pontos, tem que caminhar para não ser jogada em águas pluviais durante uma chuva forte. Você cria esses retardos com pequenos reservatórios. Hoje, em todas as construções de São Paulo existe a caixa de retardo.

No caso de Campinas quem deveria ter previsto e evitado essa catástrofe?
RUSALIM Ninguém percebeu que isso podia acontecer, a não ser depois de muitos anos, na hora em que praticamente fecharam todos os lotes. Aí começou esse problema e cada vizinho dava um jeitinho. O jeitinho não funciona mais.

Falando sobre qualidade e regularidade do piso, quais são as patologias comuns?
OLIVEIRA Patologia do pavimento permeável é a colmatação ao longo do tempo. E isso considerando que ele foi bem instalado. Eu posso ter patologia de afundamento também porque eu tratei mal a base. Mas o que mais chama a atenção é não entender o projeto do entorno. Aí eu vou ter uma colmatação muito mais rápida – porque vai colmatar de qualquer maneira. Normalmente a gente faz um projeto para durar dez anos. Mas, se eu não fizer a manutenção periódica desse pavimento, ele vai colmatar mais rapidamente.

O que é a manutenção do pavimento permeável?
TAUIL É a limpeza.
RUSALIM O primeiro filtro é o piso. É o primeiro que tem contato com tudo.

É comum vermos a vegetação nascer entre as peças. Isso deve ser retirado?
TAUIL No pavimento permeável isso é mais difícil acontecer porque você tem uma distância do solo bem maior. No intertravado é mais comum.
RUSALIM Esse já é um sinal de que foi malfeito.

O que há de mais inovador no Brasil em termos de instalação?
LUCIANO LIMA O Brasil ainda está ultrapassado na parte da mecanização. Na maioria das obras hoje ela ainda é manual.
BARRAL Como fabricante, hoje a gente propõe para o cliente, em modelos mais usuais, o fornecimento do piso já na paginação. Mas isso é mais para a linha de intertravado, que são os pátios maiores. A oferta de assentamento mecanizado não entra no pavimento permeável – e ela só se faz viável em grandes partes, economicamente falando.
DAMINELLO Se tiver muito recorte, já não é viável.

Essa versão paginada já vem em blocos de qual área?
TAUIL É por metro quadrado. O próprio equipamento faz o encaixe.
LIMA Ele é feito com uma empilhadeirazinha, mas ela é mais utilizada em obras portuárias do que são as grandes obras. Muitas empresas têm esse equipamento, porém, em 95% dos casos a instalação é feita manualmente.
TAUIL E a produtividade é grande manualmente.

No Brasil a gente sofre muito com os remendos malfeitos de asfalto. Quais os cuidados na hora de fazer no piso intertravado esse tipo de abertura e fechamento?
TAUIL O pavimento intertravado é mais fácil de ser trabalhado do que o asfalto, e traz vantagens. O asfalto é como um dente obturado, no qual você faz uma lombada ou um rebaixamento. Já o pavimento intertravado tem a concepção do paralelepípedo: você tira e recoloca, que é uma grande vantagem.
LIMA No pavimento intertravado normal você faz o rejunte com areia ou pó de pedra. No intertravado drenante você usa pedrisco. A empresa que vai fazer a mão de obra quer o desenho do bloquete intertravado, se é poroso, não importa. Ela põe o pó de pedra, a areia e entra na colmatação. Espalha, trava tudo. É comum você andar nas calçadas e ver o pavimento intertravado drenante, que é todo poroso, com o pó de pedra já todo fechando o pavimento. Ou seja, perde a sua função.
BARRAL Como anda a questão da norma de execução do piso permeável?
TAUIL Por enquanto não tem a norma de execução. Tem a indicação. E a norma do intertravado é similar. A colocação das pedras, o acerto do canto, os materiais.
DAMINELLO Mas tem uns exemplos que ainda não são seguidos por projetistas e paisagistas.
OLIVEIRA A questão é que água não combina com pavimento. E, quando um projetista vai especificar o pavimento permeável, ele ainda tem receio de trabalhar com estruturas abertas. O pessoal tende a usar materiais mais fechados. Pode voltar lá e ver os primeiros projetos de pavimento permeável: estão todos colmatados. Mas isso já nasceu do projeto.
RUSALIM Eles têm medo de colocar pedra, acham que vai afundar.
DAMINELLO Eu mexo com projeto de paisagista todo dia. E eu nunca vi um projeto com uma sub-base e a base no Brasil. Não existe isso. É só com pó de pedra.

É uma questão de custo?
RUSALIM Não. É cultural.
LIMA Eles fazem os mesmos projetos do intertravado convencional e só substituem o produto de cima, o revestimento.
RUSALIM A gente faz um trabalho muito forte com os arquitetos exatamente em relação a isso. A gente insiste muito para eles ligarem para o fabricante. Eles têm que ter esse contato.

Existe algum solo em que não se pode usar esse tipo de piso?
OLIVEIRA Só quando o lençol freático é alto. Daí você não tem espaço.

E essa camada pode chegar a quanto de espessura de substrato?
OLIVEIRA A gente indica 20 cm. Esse cálculo é um dos anexos da norma, que trata justamente de calcular que altura é necessária. Porque ela depende da chuva local, da área total, se existe área de contribuição. Então, para facilitar, tem fabricante dizendo para usar 20 cm, em regra, porque vai funcionar. Claro que em um empreendimento comercial existe a questão mecânica, além da hidráulica, porque é um pavimento. Por isso, é preciso ainda saber se 20 cm vão suportar a carga daqueles veículos. Mas esse é o papel do projetista, e não do fabricante.
RUSALIM A gente já teve um problema em uma obra, na praia, em que as ondas invadiam uma área da casa e foi feita uma base com quase 80 cm.
BARRAL Hoje, a gente recomenda pelo menos 20 cm em tráfego leve, como em uma loja ou drogaria, porque daí você não erra. Executamos uma obra de um hipermercado com 10 mil m2. É o projeto perfeito: o arruamento ficou de asfalto, tem todo o caimento para as vagas e todas as vagas do estacionamento em pavimento permeável. Não tem uma galeria. Em dias de chuva, você entra no carro e não tem lâmina de água. Eles fizeram a base das vagas com 35 cm porque, se o solo não tem capacidade de vazão, a base espessa faz esse retardo. Ficou esteticamente agradável e tem o apelo ecológico. Hoje, se você faz o pavimento permeável, ganha ponto nos projetos de certificações, no Leed, no Acqua.

A que podemos atribuir os principais problemas das patologias?
TAUIL À falta de projeto e, principalmente, aos arquitetos e paisagistas que especificam sem se preocupar com o projeto. A arquitetura resolve um problema estético, mas não vai a fundo no projeto executivo, que deve entregar para o engenheiro da obra detalhes suficientes para o preparo da base. Não interessa ter o projeto bonito, ele tem que ter o projeto de produção. Na pavimentação é o paisagista que tem que dizer como deve ser feito o piso. Mas cadê o projeto de cálculo?
RUSALIM E se você for perguntar o paisagista não vai lhe responder.
DAMINELLO Ele diz “toca aí”.
ANA PAULA É preciso fazer uma campanha para que as universidades e outros formadores de projetistas se atentem a isso. O arquiteto quer inovar, mas ele esquece da normas. Tem norma de produto, de execução, e isso tudo vai afetar o desempenho do produto.

No caso dos paralelepípedos, há alguma paginação que trava mais do que a outra?
TAUIL Em ruas onde tem tráfego de carros é mais recomendável a espinha de peixe, pois a colocação não obedece a uma linha reta e, portanto, é mais difícil de abrir. Onde só tem circulação de pedestre pode ser em damas [com duas peças paralelas, e duas perpendiculares]. A resistência do piso com concreto drenante chega a 25 MPa pela norma. E temos o que imita o pavimento intertravado, cujo espaçador é maior, que chega a 50 MPa, recomendado mais para ruas de tráfego mais intenso. A questão é sempre qual piso especificar de acordo com o número de solicitações do tráfego em cima.

De acordo com o tráfego, altera-se também o traço do concreto?
TAUIL A gente chega a concreto de 50 MPa no piso convencional.
BARRAL Acho que tem que tomar um pouco de cuidado porque hoje o piso permeável de concreto poroso não é indicado para tráfego pesado.
LIMA Isso mesmo.
BARRAL Se você colocar esse pavimento numa doca, por exemplo, mesmo que eu faça ele com 10 cm ou com 12 cm de espessura, em um ano ele vai estar deteriorado.
RUSALIM Nós oferecemos pisos de 10 cm de espessura, mas mudamos os espaçadores. Usamos uns maiores e também pedras mais duras.
BARRAL Mas de concreto poroso?
RUSALIM A gente faz um misto. É piso permeável com um espaçador um pouco maior, pedras mais duras, como granito ou basalto, e uma compactação diferente.
OLIVEIRA Mas aí você aposta numa permeabilidade complementar pela junta.
RUSALIM Também.
BARRAL Então acho que entra um pouco da especificação do fabricante, porque a partir do momento que tem a norma, a 16.416 de 2015, a minha verdade é o que a norma prega. E a norma fala “pavimento de concreto poroso, tráfego leve”.
OLIVEIRA A norma serve como referência. Se eu tenho um desenvolvimento e consigo atender acima do que a norma tá pedindo. Nada impede a evolução de materiais.

Tecnologicamente falando, o que há de mais inovador em pisos intertravados e pisos permeáveis?
TAUIL Na Inglaterra a gente vê quase toda organização utilizando o pavimento permeável e tirando partido dessa água não só para retardar e jogar fora, mas também para regar a vegetação ao redor, por exemplo. Eles retardam e depois aquela água vai direto para os canteiros, através de drenos. Então tem que pensar nesse contexto maior, que é o que fazer com a água. A gente não quer inundações na cidade, e se puder contribuir para reduzir isso com um pavimento agradável para se movimentar, por que não? Por isso eu falo: em ruas de periferia, onde tem pouco trânsito, os órgãos públicos deveriam pensar em sair do asfalto.

Qual é o fator limitador?
TAUIL É uma questão comercial. O lobby do asfalto é muito forte nas prefeituras. Não é que se vai abolir o asfalto. Existe um conceito internacional que autoestrada é concreto. Sem dúvida, é uma beleza. Pega as avenidas, asfalto. Mas entrou na periferia, onde você tem que retardar a velocidade dos carros, você pode usar o paralelepípedo, que já é um inibidor natural de velocidade. O pavimento intertravado também, porque você deixa de andar no liso para andar em uma textura, o que inibe o motorista – e não a placa de 40 km/h, que o motorista às vezes nem vê. Quem viaja para fora conhece isso. Na Inglaterra é típico.

Por Gustavo Curcio e Lidice-Bá

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