O guia da fixação correta da cerâmica

O ano já iniciou com reviravoltas significativas para a construção, que agora contará com um guia para a execução de futuras fachadas de edificações. Ainda neste semestre, os projetistas e engenheiros deverão deparar com novas regras na hora de conceber fachadas, devido à revisão da norma 13755 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), voltada a revestimentos externos. Adequar-se às tecnologias construtivas atuais é um dos objetivos da norma, cuja revisão está sob discussão desde 2011 e vai inserir novas práticas que resultaram no texto Projeto e Execução de Revestimentos Cerâmicos de Fachadas e Paredes Externas com a Utilização de Argamassa Colante.

‘A ABNT procurou os representantes do setor de construção civil em 2011 para dar início às discussões em torno das alterações da norma. A ideia é aplicar revisões a cada cinco anos’, explica Max Juginger, engenheiro da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que foi coordenador do comitê 189000-03 da ABNT, responsável pela elaboração do trabalho.

O resultado de cinco anos de estudos foi a criação de um verdadeiro guia sobre como fazer a execução de revestimentos cerâmicos de fachadas e paredes externas em 63 páginas. Para ter uma ideia, a versão anterior da norma continha apenas 11 páginas. ‘Na prática, colocamos no papel o que já tem sido feito há anos pelas construtoras. Pois o setor está sempre acompanhando a evolução das novas tecnologias’, observa o engenheiro Max Juginger.

Entre as mudanças do novo texto, há uma que salta aos olhos: a criação de uma subfaixa para o índice de argamassa colante para revestimentos cerâmicos entre 0,3 MPa e 0,5 MPa. Antes da revisão, no texto anterior, o índice era de 0,3 MPa. “Essa faixa foi criada e ampliada para garantir maior durabilidade do revestimento. Foi criado esse novo ensaio para a resistência superficial do emboço, que deu uma margem maior de escolha ao projetista”, atesta Maurício Resende, secretário de comissão da norma 13755 e consultor técnico da CCB (Centro Cerâmico do Brasil).

Criar projetos para fachadas também é uma outra determinação que faz parte das novas regras da norma 13755. “Detectamos que as fachadas devem ter projeto. Não precisa ser feito necessariamente por terceiros, mas por alguém internamente, na empresa, e que considere as melhores especificações de materiais e de procedimentos de execução e controle do revestimento”, explica Resende.

A eliminação da limitação do tamanho da cerâmica, que pela norma antiga foi estabelecida em 440 cm2, também faz parte do novo guia. “Decidiu-se que o tamanho da cerâmica a ser usada na fachada ficará a critério dos projetistas, assim como o método construtivo de aplicação das peças. Imaginamos que, como vai ter um projetista pensando especialmente na fachada, não será preciso ter definições prévias dos tamanhos de cerâmica”, conclui Resende.

A nova norma deve aumentar a durabilidade dos revestimentos

Amanda de Andrade Neme, gerente da Gail Cerâmica, não acredita que as novas regras poderão elevar os preços dos produtos. “Não vejo impacto direto no preço da cerâmica, pois os requisitos técnicos descritos na nova revisão não desrespeitam a norma técnica vigente dos revestimentos cerâmicos. Lembrando que, em se tratando de uma norma de execução e não do produto, sempre deve haver o respeito às normas prescritivas dos produtos”, afirma. Ela chama a atenção para o alto padrão da cerâmica brasileira. “Enfatizo que a norma de revestimentos cerâmicos segue, como espelho, a ISO 13006, norma internacional de revestimentos cerâmicos. Portanto, os critérios são de reconhecimento mundial. Saliento, além disso, que a indústria nacional possui mais de 80% do parque fabril com seus produtos certificados pelo sistema brasileiro de avaliação de conformidade do Inmetro, o que demonstra o alto nível técnico”, aponta Amanda. A gerente da Gail está otimista com os resultados futuros da nova norma. “Considero que a evolução da norma é significativa e trará excelentes resultados na prática. A mudança conceitual de uma norma restritiva e inflexível para um guia com considerações desde o projeto até o controle de execução, devem fazer da norma um documento técnico de grande utilidade no dia a dia”, afirma. Como outros representantes do setor, Amanda também se mostra satisfeita com a regra que determina a existência de projeto para as fachadas. “Um dos grandes Impactos é a obrigatoriedade de projeto. Não que seja necessária a contratação de terceiros, mas será necessário que alguém se responsabilize a pensar em um conjunto mínimo de requisitos. É fato que projetar e planejar um empreendimento minimiza significativamente as chances de patologias”, observa. Ela também chamou a atenção para a flexibilidade da nova 13755. “A norma não é inflexível, pois permite que o projetista exemplifique o porquê da escolha e decisão. Isso exigirá que seu conteúdo se mantenha atualizado ao longo do avanço do conhecimento”, afirma. A gerente da Gail também mencionou os avanços que a 13755 trouxe para o setor ao exemplificar técnicas pouco usadas no Brasil, como a fachada ventilada cerâmica. “Em casos mais relevantes como grandes formatos de placas, a norma nova esclarece e recomenda a necessidade de processos especiais de ancoragens, como a ancoragem mecânica, dando abertura para o aumento do conhecimento e uso de técnicas como a fachada ventilada cerâmica”, explica Amanda.

Construção supõe que medida deve diminuir patologias

Mais do que criar regras, o novo guia poderá representar menos incidentes nas edificações. Essa é a expectativa de representantes do setor da construção civil. “O setor quer que diminua o número de patologias envolvendo quedas de cerâmicas nas fachadas externas. Nos anos 90, tivemos uma grande quantidade de descolamentos dessa natureza em empreendimentos. E a norma traz uma visão sistêmica, englobando o emboço, a cola e a própria cerâmica”, afirma Jorge Batlouni, diretor-técnico da Construtora Tecnum e vice-presidente de Tecnologia e Qualidade do Sinduscon, que participou das reuniões do comitê que está por trás das novas regras.

A norma 13755 refere-se a fachadas externas, portanto, não é aplicada a revestimentos cerâmicos internos, que foram os protagonistas dos casos recentes de desplacamentos cerâmicos, como frisado pelo diretor da Construtora Tecnum. “A norma está adequada e complementada”, comemora Batlouni. Para ele, uma das mudanças mais significativas nas novas regras refere-se à necessidade de projeto de fachada. “Foi determinado que deve-se fazer um painel teste, com protótipo, e testá-lo a partir de ensaios. Assim, saberemos se o desempenho de todo o sistema de fachada está funcionando”, observa o diretor. Salvador de Sá, superintendente do CB-002 da ABNT, observou que as discussões em torno da 13755 produziram um documento rico em informações. “A norma despertou muito o interesse do setor”, afirma.

Documento foi criado para acompanhar a evolução tecnológica da construção

O objetivo da revisão da 13755 é atualizar o texto para adequação à tecnologia construtiva dos dias de hoje e aos novos conhecimentos adquiridos desde 1997. A versão nova da norma também expõe diretrizes e boas condutas de projetos de revestimento de fachadas, em razão de diversas variáveis presentes no revestimento. As reuniões envolveram discussões tanto com construtores e projetistas de revestimento provenientes de cidades como Belém, Recife, Natal, Belo Horizonte, Brasília e São Paulo a até cadeia produtiva e consumidores. “Fizemos um total de 30 reuniões com uma comissão formada por 40 a 50 pessoas. Foi consenso do comitê de revisão que o texto deveria possuir um caráter orientativo, semelhante a um guia, onde o leitor pudesse encontrar informações e conhecimento para sanar suas dúvidas e tomar decisões frente à enorme variabilidade dos projetos de revestimento”, explica Max Juginger, da Poli-USP e da ABNT. O documento, cuja consulta pública foi até 20 de março, revela que aspectos importantes e consagrados no meio técnico encontram-se alocados no texto de forma prescritiva, limitando soluções reconhecidamente de maior risco. Por exemplo, a execução do painel teste foi padronizada, dado que representa valiosa fonte de informações para a confecção do projeto. Ao mesmo tempo, o projeto precisa declarar quais variáveis foram levadas em consideração, motivo pelo qual uma lista mínima é requerida e deve ser explicitada por escrito. Ainda segundo o prefácio do documento, foram também criados mais três anexos relevantes, um normativo e dois informativos. O Anexo B (normativo) contempla o ensaio de resistência superficial, há anos solicitado pelo meio técnico e já extensivamente utilizado nas obras. O Anexo C (informativo) trata de explicações detalhadas da teoria das juntas de movimentação, onde o leitor pode encontrar as informações que embasaram o item sobre juntas no corpo do texto, inclusive sobre as juntas estruturais. Por fim, o Anexo D (informativo) apresenta algumas sugestões sobre técnicas de preparo da base com o objetivo de melhorar a aderência dos revestimentos. A preocupação com o que está para acontecer também foi uma constante na hora de elaboração do texto, como informa o guia da nova 13755. “O texto foi montado de forma que os projetos resultantes apresentem certa homogeneidade e possam ser comparados e compilados no futuro, o que proporcionará a evolução do conhecimento técnico, aumento da vida útil das fachadas cerâmicas e a elaboração de uma nova versão desse texto, paulatinamente mais precisa e completa”.

Edifício Varandas Di Fiori, construído no Guarujá (SP), em 2012. Realizado pela Di Fiori Brasil Empreendimentos Ltda, teve projeto arquitetônico de Paulo Henrique Varandas. A fachada recebeu revestimento cerâmico da Gail. Para a gerente da marca, a mudança da norma não deverá afetar o preço dos produtos

Por Rosa Symanski

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