Simbiose nos projetos: o equilíbrio entre a arquitetura e a engenharia

O arquiteto paulistano Jorge Königsberger abriu seu escritório em 1971, recém-diplomado em arquitetura pela Universidade Mackenzie, em São Paulo. Pouco tempo depois, ele aceitou como estagiário o estudante da FAU-USP Gianfranco Vannucchi, italiano, que chegou à capital paulista na infância. Ao se graduar, em 1975, Vannucchi passa a ser sócio, e ambos iniciam uma longa parceria no escritório localizado na Avenida Eng. Luiz Carlos Berrini, no Brooklin. Há quatro décadas, Königsberger Vannucchi tem sido referência na arquitetura de edifícios comerciais, em multiuse projects e na nacionalização de projetos.

Nessa rica trajetória, os sócios desenvolveram mais de 1.000 planos arquitetônicos. E graças à excelência dos trabalhos conquistaram prêmios significativos, como IAB, Asbea, Secovi, de design da Associação Paulista de Críticos de Arte, da Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires e o Prix D’Excellence da Fiabci. Königsberger também já presidiu a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea) e, em 2004, publicou o livro O Arquiteto e as Leis – Manual Jurídico, para arquitetos, juntamente com a advogada Lízia Manhães de Almeida. A publicação oferece todas as orientações jurídicas sobre regulamentação da profissão, responsabilidade legal do arquiteto, direitos autorais e diretrizes contratuais. Atualmente, os desafios continuam em um momento que Jorge Königsberger considera “de mudanças profundas para a arquitetura”. Ele acredita que a partir de agora teremos um mercado mais competitivo, técnico, ético, ambientalmente consciente. “E também mais criativo, porque a realidade vai exigir”, afirma. Para ele, arquitetura e engenharia terão uma simbiose ainda maior nos projetos do futuro.

Em arquitetura corporativa há algum limite ou conflito entre o trabalho do arquiteto e o do engenheiro?
Podem existir limites relativos ao escopo do trabalho de cada profissional, mas não há necessariamente motivos para haver conflito em nenhuma área da construção. Somos complementares.

Como equilibrar a função desses dois profissionais levando em consideração o projeto e as estruturas necessárias para sua concretização?
A prática de equilibrar a função do arquiteto e a do engenheiro é diária e engloba muitos aspectos. Desde a formação dos times envolvidos em cada empreendimentos e suas premissas até outras características. No entanto, acredito que as práticas modernas de gestão integrada de projeto e obra superam e inibem eventuais desequilíbrios.

Há fatores limitantes para a autonomia do arquiteto na condução de uma obra?
De modo geral, no Brasil os arquitetos acompanham a execução de seus projetos, porém, não respondem pela execução da obra. Em nossa experiência prática temos sido felizes com a conformidade de execução por parte de nossos parceiros. Uma boa edificação é sempre resultado de uma sinergia eficaz entre projeto e obra. E entendo como “projeto” toda a orquestração, formada por arquitetos de diversas especialidades, o time de engenheiros, projetistas, pelos consultores, pelos fornecedores de sistemas e tecnologias embarcadas.

Do ponto de vista econômico, quais são os principais fatores limitantes para o trabalho do arquiteto em um projeto?
A arquitetura sempre opera com restrições. Um limite econômico é continuamente uma realidade de projeto e obra em todo o mundo. Em países com menos recursos, esses limites exigem maior superação. Porém, fazer arquitetura envolve o desafio de gerar soluções.

Como é elaborada a lista de prioridades em um orçamento nos projetos do escritório Königsberger Vannucchi? Onde não se pode mexer em hipótese alguma?
Nós procuramos compreender as situações apresentadas e devolver as soluções, compatibilizando o esperado com o possível. Todos os arquitetos dispõem de amplo repertório criativo e de muitas possibilidades de partidos espaciais, técnicos, de materiais, de processos ou de sistemas construtivos. Isso lhes permite atender a requerimentos dentro dos orçamentos esperados.

Com quase 70 m de altura, o edifício do Sesc Paulista tem 15 andares e previsão de inauguração para o segundo semestre deste ano

Na nacionalização de projetos qual é a melhor maneira de se elaborar um orçamento? Há muitas divergências entre o que é planejado e a viabilização das obras?
Muitos projetos originados fora da realidade brasileira têm diversos custos adicionais, a começar pelo valor da duplicidade de profissionais. Os arquitetos que desenvolvem conceitos devem reprojetá-los, assumindo as responsabilidades técnicas e legais envolvidas. Dentre elas, podemos incluir o atendimento das Normas de Desempenho sobre materiais e sistemas especificados, o atendimento às normas legais locais. Novos projetos têm condições de ser compatibilizados com a realidade de custos do país.

Quais são os projetos mais emblemáticos nos quais o senhor considera ter havido um equilíbrio perfeito entre o papel da arquitetura e o da engenharia?
Acreditamos que a engenharia é a nossa caixa de ferramentas, um elemento que nos permite amplificar as possibilidades projetuais. Assim, muitos de nossos projetos nascem de premissas mais técnicas, enquanto outros recorrem posteriormente a essas soluções. Contudo, nunca enxergamos a tecnologia ou a engenharia como interfaces restritivas ao projeto – é muito bonito obter respostas de alta sinergia técnica e criativa. Dentre os trabalhos nos quais o protagonismo dos resultados técnicos é maior, posso citar quatro projetos em São Paulo. Um deles é o multiuso Brascan Century Plaza (BCP), no bairro do Itaim, um multiuse project que une áreas para hospedagem, moradia, trabalho, entretenimento, lazer e compras. Esse projeto foi vencedor do Prêmio Master Imobiliário. Outro exemplo é o Sesc Paulista, um prédio de 15 andares, com previsão de inauguração para o segundo semestre deste ano. A edificação terá áreas de exposição, salas de espetáculo, ambientes para ginástica e cursos, comedoria e cafeteria. E, por fim, o condomínio Torres do Ibirapuera e um edifício com 47 lajes no bairro do Tatuapé.

“Tenho a plena convicção de que estamos estruturando bases mais modernas para as relações de sinergia entre a arquitetura e a engenharia. Em minha opinião, essas duas profissões estarão cada vez mais entrelaçadas pelo admirável mundo novo de tecnologia e criatividade que já nos envolve.”

Como o senhor observa os grandes complexos multiusos projetados no passado recente pelo escritório? Eles seguem alguma tendência?
As cidades são multiusos totais e os usos mistos dos edifícios já fazem parte do tecido urbano brasileiro. As funções principais de uma metrópole envolvem a locomoção, a moradia, o trabalho, a troca e o lazer. Acredito que as nossas cidades se encontram com seus sistemas viários exauridos. Nesse cenário, observo espaços para pedestres sempre reduzidos, desrespeitados, deteriorados. São ambientes muito hostis a quem se locomove a pé – olhar uma vitrine distraído pode ser um risco. Assim, a concentração de funções urbanas num único complexo é especialmente bem-vinda nos tecidos urbanos problemáticos, gerando centralidades de espaços privados eficientes, mas destinados ao uso público, seja por bairro, seja por região.

Como observa o mercado de arquitetura no Brasil atualmente, tanto do ponto de vista da criação quanto da economia?
O mercado brasileiro passa por mais uma profunda crise sistêmica. Este momento afeta a toda a comunidade da construção, pois alija quadros, gera dramas e destrói empresas e sonhos. Mas passará. Tenho a plena convicção de que estamos estruturando bases mais modernas para as relações de sinergia entre a arquitetura e a engenharia. Em minha opinião, essas duas profissões estarão cada vez mais entrelaçadas pelo admirável mundo novo de tecnologia e criatividade que já nos envolve.

Por: Alexandra Gonsalez

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