BIM: a ponte para o fim da corrupção no setor

No começo de 2018 o Brasil recebeu uma notícia preocupante. Em fevereiro, a organização global independente mostrou uma piora significativa do país no ranking que avalia a percepção da corrupção no mundo. O Brasil desceu 17 posições em comparação a 2017, passando a ocupar o 96º lugar na lista que ava-liou a corrupção do setor público em 180 nações. Na escala que vai de zero (mais corrupto) a 100 (menos corrupto), o Brasil aparece com 37 pontos, três a menos que em 2016. Segundo o estudo da entidade, desde 2014, o índice de percepção da corrupção (IPC) vem caindo entre os brasileiros, e atualmente está na pior situação dos últimos cinco anos.

De acordo com o estudo da Transparência Internacional, esse percurso de queda observado desde 2013 pode ser explicado pelos efeitos da Operação Lava-Jato e outras grandes ações promovidas pela Polícia Federal que mostram um esforço para enfrentar o problema. Entretanto, não há mostras de aumento da percepção do fim da corrupção por parte da população. O que ainda se vê nas manchetes dos jornais é o envolvimento de várias construtoras tradicionais em esquemas ilícitos, um aspecto que acabou com-prometendo a imagem de toda a indústria da construção civil.

Para diversos profissionais do segmento, a tecnologia Building Information Modeling (BIM) pode se transformar em uma eficiente ferramenta contra a corrupção no mercado construtivo. A arquiteta Denise Aurora, especialista em BIM, afirma que precisão, transparência e colaboração são três características do processo BIM que podem contribuir de forma contundente para a anticorrupção dessa indústria no país. “Projetos ou modelos virtuais com a plataforma entregam, até em fases mais iniciais, informações técnicas mais precisas e confiáveis no que diz respeito a especificações e aspectos quantitativos”, explica. A arquiteta argumenta que, por ser um processo aberto e de colaboração multidisciplinar, o avanço qualitativo das informações é mais rico e rápido, pratica-mente impedindo que os projetos sejam licitados somente a partir do básico, que tenham dados quantitativos forjados ou que contenham especificações inexistentes. “Além disso, modelos digitais são auditáveis até por outros softwares e ferra-mentas digitais. As lacunas para exercer atos ilícitos são muito menores. Havendo vontade, fica mais fácil controlar projetos e obras”, completa Denise.

Outro especialista na tecnologia, o engenheiro civil Alio Ernesto Kimura, sócio-diretor da TQS Informática, também vê o BIM com otimismo. “O modelo virtual em 3D tem o potencial de se tornar uma ótima ferramenta anticorrupção, podendo gerar maior controle e transparência no planejamento e na execução de obras, evitando os desvios de verbas.” Com a tecnologia BIM, explica Kimura, é possível acompanhar de maneira mais prática e confiável os recursos efetiva-mente empregados nos projetos e compará-los com os custos orçados. “Em nosso país, onde a corrupção atinge níveis alarmantes, isso seria de extrema valia. Contudo, é necessário ressaltar que a formalização desse processo, isto é, de se obrigar contratualmente o uso do BIM, exige muito cuidado e atenção”, alerta. O engenheiro afirma que transparência e idoneidade são características que deverão estar acima de tudo para se evitar, por exemplo, o favorecimento ao uso de um determinado tipo de plataforma, como softwares específicos.

Difusão BIM no Brasil

Embora as vantagens da tecnologia sejam latentes, ainda há um longo caminho a ser percorrido no país para que a ferramenta seja amplamente adotada. “O BIM se tornou a palavra da moda. Noto que muita gente já ouviu sobre o assunto, porém poucos entenderam o que realmente é”, afirma Kimura. Para o engenheiro, é comum encontrar pessoas confundindo BIM com 3D ou softwares diversos, deixando de lado sua verdadeira essência. Entretanto, ele acredita que aos poucos a correta difusão da ferramenta será ampliada. “Atualmente, temos a Comissão de Estudo Especial CEE- 134, da ABNT, que elabora uma norma brasileira sobre BIM, a NBR 15965, com trechos já publicados.” Kimura comenta que também existem órgãos do governo, como a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que estão promovendo seminários para a disseminação da tecnologia. “E em alguns estados, como Santa Catarina, o uso de BIM já é exigido para a execução de obras públicas, e isso é um ótimo indicador.”

A arquiteta Denise Aurora acredita que o BIM é a oportunidade da vez para a construção civil, revolucionando a maneira de fazer negócios. “A revolução está no “I” do BIM: informação”, diz.
Para ela, onde há informação, processamento de dados, algoritmos, interoperabilidade e troca digital de conteúdos, há mais velocidade, menos falhas, mais possibilidades de acertos. “Já vemos  isso em tudo ao nosso redor, com a inteligência artificial e a internet das coisas. Por que não implantar na construção civil também?” Kimura lembra que para essa revolução acontecer de fato é preciso que ocorra um processo de globalização dentro da construção civil. Ele argumenta  que ao longo de anos houve uma prática de projetos bastante segmentada, muitas vezes sem qualquer interação entre as diferentes áreas. “A aplicação  do BIM exige uma postura frontalmente oposta a essa. Implica um cenário onde todos os projetistas trabalhem em conjunto, de forma  colaborativa, culminando numa otimização de performance global do empreendimento”, afirma.

Na opinião dos especialistas, há uma mistura de motivos que atrapalham uma difusão mais ampla e rápida da tecnologia no Brasil. Denise Aurora cita que um dos principais erros ao aderir ao BIM é simplesmente comprar e instalar licenças de softwares sem compreender as possibilidades de aplicação da ferramenta. “Quem começa por aí normalmente falha e se  desilude”, afirma. A arquiteta cita o próprio exemplo de frustração antes de acertar o passo com o BIM. “Meu escritório falhou assim em 2008, quando adquirimos as licenças e não soubemos como explorá–las adequadamente.” Denise conta que, apesar de ter dado treinamento em softwa-res para a equipe, não havia um conheci-mento da gestão em BIM. “Queríamos começar por um LOD 350 sem saber direito o que era LOD. Tampouco tínha-mos o restante da cadeia aderida. Logo, não fazia sentido termos somente a arqui-tetura em BIM”. Segundo a arquiteta, havia muita vontade, mas pouco critério para trabalhar com a tecnologia. “A boa notícia é que não desistimos!”

E o retorno do investimento?

Outros fatores de entrave destacados por quem domina a tecnologia são a falta de planejamento e de investimento das empresas, além das dificuldades de investir em consultorias, capacitação e framework (softwares, equipamentos, redes). Além de todos esses obstáculos, o engenheiro Alio Kimura alerta sobre a falsa percepção de retorno imediato do investimento realizado. Ele comenta que hoje o BIM representa um grande avanço tecnológico dentro da construção civil, assim como foi o CAD há algumas décadas. “Na época da implantação do CAD, a redução de custos obtida era direta e facilmente perceptível. No caso do BIM, isso não ocorre. Certamente, a correta aplicação da ferramenta gera redução de custos, porém, qual a economia real obtida?” Para Kimura, essa é uma questão difícil de responder, pois a implantação do BIM é muito mais ampla e complexa que a do CAD.

O engenheiro especialista explica que implantar efetivamente a tecnologia não é uma tarefa fácil e nem sempre irá repre-sentar uma redução imediata de custos, sobretudo durante a fase inicial, pois engana-se quem pensa que para dominar o uso do BIM basta investir em softwares e em computadores. “A implantação envolve uma série de quebras de paradig-mas. Como o setor de construção civil evolui de uma forma muito pragmática, ainda existe resistência para absorver as mudanças”, esclarece. De acordo com Kimura, há um consenso, do ponto de vista teórico, do enorme potencial da tecnologia, mas ter a absoluta certeza de que irá funcionar plenamente, desde o projeto até a manutenção da edificação, ainda é algo para poucos. “Apesar de todos esses percalços, acredito que a grave crise econômica que se instalou no país nos últimos anos tem sido o principal entrave para a ampliação do BIM no mercado, pois para implantá-lo eficazmente é necessário investimentos”, completa.

“Projetos ou modelos virtuais com a plataforma entregam, até em fases mais iniciais, informações técnicas mais precisas e confiáveis no que diz respeito a especificações e aspectos quantitativos.”

Denise Aurora

Denise Aurora alerta que utilizar BIM não significa que o investimento com insumos, as equipes de projetos e consultorias especializadas, vai custar menos. “Isso pode até acontecer futuramente, quando todos estiverem ganhando em produtividade.” Entretanto, ela afirma que as principais fontes para diminuir os custos com BIM residem em poder prototipar digitalmente e comparar as soluções, antever os problemas, diminuir o tempo de execução e o retrabalho no canteiro, aumentar a capacidade de pré-fabricação e industrialização de componentes, aumentar a automação por robotização, diminuir os desperdícios e as logísticas desnecessárias.

O engenheiro Alio Kimura tem a mesma opinião. “É melhor pensar em qualidade,  rastreabilidade, custo-benefício, lucro, do que somente em custos de implantação”,  diz. Ele explica que num primeiro momento é necessário investimentos, sobretudo na montagem e na manutenção de uma equipe de pessoas altamente qualificadas para trabalhar com a plataforma. “É natural que o
BIM gere uma elevação dos custos iniciais. Porém, posteriormente, e se bem empregada, a tecnologia tem o potencial de reduzirvalores que vão muito além do aporte inicial. Ganha-se em assertividade, planejamento e otimização”, afirma. Outra vantagem destacada por Kimura é a diminuição significativa da necessidade de improvisos na obra, evitando retrabalhos, acelerando a tomada de decisões estratégicas e otimizando o uso dos materiais e da mão de obra.

Kimura também destaca o BIM como instrumento de previsão de erros construtivos. O engenheiro lembra que a construção de uma edificação envolve milhões de informações. “É como dividir a tarefa de montar um Lego gigante, com uma grande quantidade de peças dos mais variados tipos e tamanhos, entre várias equipes. Se não houver uma comunicação adequada entre elas, a chance  e cometer erros é de quase 100%”, explica. Muitas imprecisões, inclusive, podem ocorrer de forma totalmente despercebida. Para o engenheiro, a possibilidade de executar e visualizar a obra digitalmente, em 3D, antes do início efetivo da sua execução, traz uma série de benefícios, entre eles a  eliminação de interferências entre elementos.“Por melhor que seja a tecnologia empregada, construir um edifício jamais será uma tarefa fácil.” Uma vez que o BIM implica, necessariamente, uma fase de projetos mais detalhada e precisa, torna-se possível prever e evitar erros construtivos por meio da criação de procedimentos e processos que facilitem a execução da obra.

“Na época da implantação do CAD, a redução de custos obtida era direta e facilmente perceptível. No caso do BIM, isso não ocorre. […] Ainda existe resistência para absorver as mudanças”

Alio Kimura

É 2018 o ano da implantação mundial da tecnologia BIM

Em março deste ano, Bilal Succar, da Newcastle University (Austrália), PhD em avaliação de performance e tecnologia de construção, um dos maiores especialistas do mundo em BIM, decretou que “2018 é o ano da Implantação mundial do BIM”. Isso aconteceu durante o primeiro painel do seminário BIM: “Oportunidade para Inovar a Indústria da Construção e Aumentar a Transparência das Compras Públicas”, uma iniciativa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), juntamente com o Senai Nacional, em Brasília.

O evento reuniu cerca de 130 pessoas, a maioria é de representantes do setor público, e foi acompanhado online por mais de 8.000 interessados em aprendar sobre BIM. Dentre os palestrantes havia empresários da construção civil, gestores públicos, executivos do setor privado, acadêmicos, desenvolvedores de software e profissionais especializados em inovação de diversos segmentos. De acordo com Dionyzio Antonio Martins Klavdianos, presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade (Comat), o evento foi de nível altíssimo, com um impacto bastante positivo em profissionais de toda a cadeia da tecnologia. “O seminário BIM fortaleceu os trabalhos de um comitê interministerial de políticas para implantação da tecnologia no país junto ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços”, afirma Klavdianos.De acordo com o presidente da Comat, o encontro deu a certeza ao setor de que o BIM é uma tecnologia inovadora, mas complexa, com alto potencial para alavancar negócios no âmbito na construção. “O trabalho do comitê tem sido determinante para promover políticas públicas e discussões sobre a ferramenta.” Ele garante que em 2019 haverá uma nova edição do evento. Klavdianos também destacou a importância da ferramenta no combate à corrupção. “É um projeto aberto e colaborativo que dificulta qualquer ação ilícita em seus processos.” Mas ele vai além, e afirma que há vários outros indicadores da importância e potencial do BIM. “Assim como já ocorreu em diversos mercados, queremos a digitalização da indústria construtiva. O BIM nos permite exatamente isso, uma versão 4.0 do setor da construção”, completa.

O seminário realizado pela Cbic foi celebrado entre os especialistas. “É bastante animador ver um evento desse porte”, comenta a arquiteta Denise Aurora. Para ela, um dos fatores mais positivos nesse tipo de iniciativa é ver um movimento que parte do governo. Denise afirma que as ações da ABDI com o trabalho de estudo e publicação da coletânea de guias BIM ABDI-MDIC, bem como o decreto federal, são mobilizações nas quais a área deve apostar. “O governo dá um passo, nós, da cadeia construtiva, damos outro na mesma direção. Acredito que assim se inicia um ciclo virtuoso envolvendo essa tecnologia.” Para a arquiteta, essa foi a mensagem mais importante do evento: um trabalho conjunto e colaborativo, assim como o BIM.

Por Alexandra Gonsalez

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